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Até que ponto o bolsonarismo é simbolicamente "inadmissível" em Chico Xavier?


Os brasileiros estão ainda aprendendo a reconhecer a realidade e a libertá-la das convicções pessoais, muitas delas ilusões consolidadas há mais de 40 anos. E não é muito fácil, pois até pessoas com algum grau de esclarecimento caem em muitas armadilhas e não conseguem se livrar de ilusões que lhes são agradáveis, embora traiçoeiras.

O "espiritismo" brasileiro é a maior fábrica de "bombas semióticas" no Brasil. É um terreno onde a ficção tenta se impor à realidade, criando um maniqueísmo que atribui a vida terrena um longo período de acumulação de desgraças e sacrifícios e a vida espiritual o repositório de fantasias e idealizações às quais, na verdade, carecem do mais ínfimo fundamento teórico.

Se semiólogos esforçados e competentes como Wilson Roberto Vieira Ferreira, do Cinegnose, ainda desconhecem as "bombas semióticas" de Francisco Cândido Xavier, o esperto deturpador do Espiritismo que se valeu de várias conveniências para se transformar de pastichador de livros (não se esqueça, sob a ajuda de editores da FEB) a um "quase deus", imagine então os cidadãos mais comuns e o internauta médio que se mete a sábio, mas não passa de um propagandista da pós-verdade?

Vamos aqui falar do caso de Chico Xavier e Jair Bolsonaro. Muitos brasileiros tremem de medo de colocar uma revista sobre Chico Xavier ao lado de alguma sobre um ícone da extrema-direita, como, por exemplo, Adolf Hitler. Se uma mesma banca vende uma revista sobre o "médium" e outra sobre Adolf Hitler, as duas têm que se colocadas uma distante da outra, ignorando que tanto um quanto outro se colocam num mesmo contexto ultraconservador e medieval.

A Teologia do Sofrimento, que tem em Chico Xavier seu defensor mais entusiasmado - bem mais do que qualquer católico propriamente dito que defende essa corrente medieval - , é um "holocausto do bem". E, adaptada ao "espiritismo" brasileiro, cria-se um "holocausto espírita" através da ideia do "resgate coletivo", uma invencionice que faz o juízo de valor "espírita" atribuir a tragédias coletivas uma mesma sina, um mesmo carma.

O ultraconservadorismo "espírita" ainda é um detalhe estranho para a maioria de seus simpatizantes. Dá pena ver pessoas vergonhosa e histericamente revoltadas achando "um absurdo" associar Chico Xavier a Jair Bolsonaro, disparando verdadeiras asneiras emocionais em textos que parecem religiosamente corretos, porém são desprovidos de qualquer sentido lógico e coerente.

Afinal, Chico e Jair tiveram a mesma trajetória arrivista. Um criou uma suposta antologia poética "do além-túmulo" - seria bom demais para ser verdade que poetas de diferentes procedências e épocas se reúnam para lançarem juntos um livro concebido no mundo espiritual - e causou merecida revolta nos meios literários sérios. Outro criou um plano de atentado terrorista e causou revolta nos meios militares.

Ambos foram beneficiados pela impunidade e pelas brechas das ações criminais. Chico Xavier, em 1944, foi beneficiado pelo juiz suplente João Frederico Mourão Russell (que já seguia a linha seletiva que hoje se vê na Operação Lata Jato, STF, Sérgio Moro etc) que julgou o processo do caso Humberto de Campos "improcedente". Russell também cobrou custos advocatícios à viúva do autor maranhense, dona Catarina Vergolino de Campos.

No caso de Jair Bolsonaro, o Suprerior Tribunal Militar decidiu uma punição disciplinar, aposentando prematuramente o militar, que era tenente e, para efeitos previdenciários, foi promovido a capitão sem chegar a exercer este cargo.

Bolsonaro iniciou carreira como deputado federal a partir de 1989, quando se candidatou, e 1990, quando tornou-se parlamentar. Chico Xavier tornou-se dublê de filantropo e "atendia" pessoas humildes como suposto mensageiro, dando aos atendidos conselhos de cunho conservador, que apelavam para a conformação com a pobreza dentro da Teologia do Sofrimento.

NÃO SE PODE SER BINÁRIO SEQUER COM O BOLSONARISMO

O caso do cantor Djavan, que às vésperas das votações no segundo turno da campanha presidencial manifestou apoio a Jair Bolsonaro, traz uma grande reflexão. Um cantor associado a uma música predominantemente alegre - embora haja também canções tristes, mas de cunho bem romântico - e a uma postura otimista sobre o Brasil, associado a um apoio a um candidato que simboliza oficialmente o ódio e a violência.

Esse caso, assim como o do maquiador bolsonarista da funkeira Valesca Popozuda, mostra o quanto certos casos de apoio bolsonarista parecem muito estranhos, mas são condizentes. Afinal, o bolsonarismo não é ódio e homofobia 24 horas por dia, e os alertas de que Chico Xavier teria apoiado Jair Bolsonaro se vivesse em 2018 são comprováveis por uma infinidade de motivos que desafiam qualquer pensamento desejoso de quem tentasse desmentir essa tese.

O "funk" e a pessoa de Chico Xavier estão inseridos, oficialmente, a uma simbologia que, na superfície, parece contrária ao ideário bolsonarista. Isso porque ambos estão simbolicamente associados a imagens de pobres alegres e a um discurso de aparente positividade. Há quem veja suposto esquerdismo nesses dois fenômenos, o que parece uma visão agradável, porém bastante confusa e de argumentos que não condizem à realidade.

Mas os dois fenômenos, "funk" e Chico Xavier, se encaixam no bolsonarismo porque, por trás da embalagem agradável, os dois apresentam conteúdo extremamente conservador. O "funk" é machista - mesmo o suposto feminismo das MCs segue valores machistas de objetificação da mulher (o sobrenome artístico de Valesca, que evoca os glúteos, é ilustrativo) - , glamouriza a pobreza e nos bastidores de sua produção "artística" há processos análogos aos da precarização do mercado de trabalho.

Já Chico Xavier, como sabemos, sempre defendeu uma pauta análoga ao bolsonarismo. E ele, pessoalmente, dizia reprovar o ódio e a vingança, mas com o caso de Amauri Xavier, vítima de uma provável "queima de arquivo" - a revista Manchete, em 1958, já alertou que o sobrinho de Chico Xavier era ameaçado de morte por envenenamento por setores do "movimento espírita", o que teria sido consumado em 1961 - , nos faz até duvidar dessa postura.

Os defensores de Chico Xavier parecem dóceis, quando tudo está bem, mas quando são contrariados, se explodem de raiva, mesmo que alguns tentem controlar esse sentimento. São apelidados de "gremlins espíritas", em alusão ao filme Gremlins, com aqueles bichinhos que parecem dóceis quando estão alegres, mas depois se transformam em monstros violentos.

Chico Xavier já fez julgamento de valor severo e sem fundamento contra humildes vítimas do incêndio do Gran Circo Norte-Americano, em Niterói, em dezembro de 1961. Irritado, chamou a natural desconfiança dos amigos de Jair Presente quanto a supostas psicografias de "bobagem da grossa". No programa Pinga Fogo da TV Tupi, Chico Xavier apresentava um semblante de um velho ranzinza e mal-humorado, distante da imagem "amorosa" que sobrevive no imaginário de muitos.

Será que a imagem construída do "não ódio" não faria parte dessa propaganda enganosa que transformou Chico Xavier na "fada madrinha" do mundo real, dentro do clima de "contos de fadas para gente grante" a que se reduziu o "espiritismo" brasileiro, cada vez mais afastado de Allan Kardec?

Madre Teresa de Calcutá também era ranzinza, temperamental, grosseira e resmungona. Aliás, os maiores resmungões são aqueles que pedem, religiosamente, para "ninguém reclamar". Os verdadeiros queixosos não são aqueles que queixam o tempo todo das desgraças da vida, mas aqueles que, ainda que sofressem de alguma forma, sobretudo dores físicas, mas que odeiam assumir responsabilidades diante da consciência de problemas graves a resolver.

O resmungão não é aquele que sofre adversidades o tempo todo. O resmungão e, digamos, o pior desse tipo, é aquele que pede para os outros não reclamarem e para colocar seus problemas debaixo do tapete, apostando na "zona de conforto" de acreditar que Deus "resolverá" esses problemas.

Não há gente mais resmungona que aquele que quer que outros acreditem que tudo está bem, principalmente os que veem acumuladas desgraças em sua vida, sem poder controlar nem contornar os obstáculos em sua frente.

O lado resmungão de Chico Xavier pode estar subentendido nos apelos de sua Teologia do Sofrimento, presente desde Parnaso de Além-Túmulo. Ele foi um tipo caipira antiquado, vindo de uma Pedro Leopoldo rural e ultraconservadora, e, ao longo dos tempos, ele usou essa corrente do Catolicismo medieval em causa própria, evitando investigações contra ele, abafando questionamentos alheios e até como recurso de vitimismo para forçar o apoio e a comoção públicos.

Isso vai contra a simbologia oficial, que transforma Chico Xavier em figura dócil, com "lindas mensagens" e "lindas estórias" que o colocam no âmbito da ficção infantilizada de seus seguidores, e que por isso "nunca pode" sequer dialogar com Jair Bolsonaro, apesar das caraterísticas comuns.

O que surpreende é que a mitificação separa demais Jair Bolsonaro e Chico Xavier, quando os dois, no fundo, são a mesma coisa. Jair Bolsonaro é folgazão (sobretudo através do bordão "talquei", simplificação grosseira de "está OK?") e sua esposa Michelle Bolsonaro defende os mesmos paradigmas de "caridade" do "médium espírita". Em contrapartida, Chico Xavier era, no íntimo, ranzinza e reacionário, defendendo muitas pautas do atual presidente da República.

O próprio pano de fundo das expressões "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" e "Brasil, Acima de Tudo, Deus Acima de Todos" é surpreendente. Ambas as expressões são idênticas entre si e o mito da "Pátria do Evangelho" - que o periódico "Correio Espírita" diz ter começado em agosto de 2017, justamente a época de ascensão pré-eleitoral de Bolsonaro - , na verdade, pressupõe uma teocracia que repaginaria, ao mesmo tempo, o Império Romano e o Catolicismo da Idade Média.

Até a "caridade" de Chico Xavier, seja a suposta filantropia, seja a suposta consolação, sobretudo pela onda das "cartas mediúnicas" - "cortina de fumaça" para abafar tensões sociais que iriam pôr em xeque a ditadura militar - , segue padrões do ultraconservadorismo social.

Há um modo de "ajudar o próximo" bastante conservador, que assimila técnicas de "criação em cativeiro", apela para ações paliativas do Assistencialismo e trabalha para não oferecer risco aos privilégios dos mais ricos, que apenas são convidados a se livrarem somente do que lhes é desnecessário, como os vestidos fora de moda das madames, ou algum valor financeiro pequeno (cerca de R$ 10 mil) para donativos.

Nesse tipo de caridade ultraconservadora, o "benfeitor" faz muito pouco, não realiza progressos sociais que, em tese, se comprometeu a assumir, mas quer aplausos em quantidade e entusiasmo maiores do que se espera de alguém que cumpriu alguma grande realização filantrópica.

CONCLUSÃO

A memória curta das pessoas, aliada ao pensamento desejoso, ao jeitinho brasileiro, ao jogo de cintura e outras manobras próprias das conveniências humanas, faz com que se afastem as imagens de Chico Xavier e Jair Bolsonaro, dois fenômenos do ultraconservadorismo social dos últimos tempos.

Mas, observando bem, veremos que Jair Bolsonaro é mais bonachão do que se imagina, e Chico Xavier bem mais ranzinza. E, para desespero de muitos, as ideias de Chico Xavier, de maneira confirmada, se equiparam, sim, à causa bolsonarista: servidão e trabalho exaustivo (reforma trabalhista), atribuição de confusão mental ao homossexualismo (tese da "cura gay"), restrição ao debate nas escolas (Escola Sem Partido). É bom jair se acostumando: Chico Xavier sempre foi ultraconservador.

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