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Chico Xavier, o "dono da verdade"


Chico Xavier tornou-se o brasileiro mais privilegiado nos últimos tempos. Ele foi beneficiado por uma mordomia que mesmo os mais influentes políticos não conseguem ter, assim como os ministros do Poder Judiciário.

Ele é o único que, mesmo errando, é dispensado de ser responsabilizado pelos seus atos e é considerado "líder" e "mestre" mesmo adotando posturas hesitantes e abordagens confusas. Ele recebeu, de seus seguidores, a mais absoluta imunidade que vale 13 anos após seu falecimento.

Francisco Cândido Xavier, seu nome posteriormente adotado - o nome de batismo era Francisco de Paula Cândido - , tornou-se um problema para o Brasil, porque tornou-se, para seus seguidores e simpatizantes, uma figura de reputação totalitária, portadora de qualidades que ele nunca teve.

Sua imagem controversa e sua obra irregular, associadas à complacência que os diversos tipos de seguidores, adeptos e simpatizantes de Chico Xavier sentem por ele, faz com que haja um apego obsessivo à sua pessoa, tornada quase um "deus" e dotada de uma forma esquizofrênica de "perfeição".

Ele tornou-se o "dono da verdade", a "verdade personificada", independente do ponto de vista de cada seguidor, uns enxergando virtudes ocultas em suas mensagens, outros recusando-se a interpretá-lo fora do que ele pessoalmente disse ou escreveu. Mas todos mantendo Chico Xavier no alto de seu pedestal.

Chico, porém, não merecia esse endeusamento todo. Ele foi um católico recrutado pela Federação "Espírita" Brasileira para ser o garoto-propaganda de uma forma deturpada de Espiritismo. Errou mais do que acertou e, em muitos casos, errou de propósito, escrevendo mensagens apócrifas usando nomes de mortos.

Apropriação indébita de nomes de autores prestigiados - como Humberto de Campos, Olavo Bilac, Castro Alves e até a pouco conhecida Auta de Souza - fizeram Chico Xavier virar o "dono" de alguns desses autores, quando eles não se tornaram muito prestigiados em nossos dias.

Humberto de Campos e Auta de Souza, por exemplo, estão na mesma situação da anônima Irma de Castro, a Meimei, "sequestrados" por Chico Xavier e hoje nunca apreciados senão na condição de "propriedades" do anti-médium mineiro, nomes que deixaram de ter autonomia e que agora estão associados a Xavier como se tivessem sido seus personagens.

Chico passou a representar, com gosto dele próprio - apesar de muitos o descreverem sempre como um "homem puro" que "só errava" porque era "vítima de intrigas" - , os estereótipos referentes à velhice, caipirismo, humildade e filantropia, se valendo de jogos de valores contraditórios, criando dicotomias que fortaleciam o mito chiquista.

As pessoas que defendem Chico Xavier parecem até pouco se importarem com o país, com suas vidas, ou mesmo com os outros velhinhos. O que lhes importa, antes de mais nada, é manter esse estereótipo no pedestal, daí as dicotomias ignorante-sábio, pobre-rico, fraco-forte e silêncio-voz que alimentam o mito do anti-médium.

Além disso, uma corrente de seguidores de Chico Xavier tenta promovê-lo acima de suas limitadas atribuições. Não bastasse sua mediunidade, embora apoiada em quase unanimidade, seja irregular e duvidosa em muitas atividades, ele é promovido a "filósofo", "psicólogo", "sociólogo", "profeta", "cientista" e "estrategista político" por conta da interpretação sensacionalista de suas mensagens.

Ele tornou-se um totem perigoso, porque a ele é atribuída uma perfeição que nunca existe. Atribuindo ou não qualidades que lhe são surreais, os seguidores de Chico Xavier têm em comum o apego obsessivo ao seu estereótipo de "figura bondosa", sempre supondo uma "superioridade" inexistente, porque ele na verdade teve uma carreira irregular e cheia de pontos sombrios.

As pessoas ficam condescendentes com os erros de Chico Xavier, e a complacência o faz portador de uma "verdade" que ninguém entende mas todo mundo quer acreditar. Ele se torna "dono da verdade", sempre portador de uma "superioridade" devido a um estereótipo de "bondade" que nem foi assim tão transformador.

Como "dono da verdade", até mesmo absurdos e incoerências, quando ditos por Chico Xavier, são comodamente aceitas pelos seus submissos seguidores, pouco preparados para o raciocínio discernitivo, perdidos por entender como "ciência" um repertório de mistificações e misticismos que apenas deturpam o conhecimento humano e confundem mais do que esclarecem.

Afinal, como filantropo, Chico Xavier pouco fez e sua caridade nunca passou de atos paliativos que quase nada transformaram a humanidade e que tão somente diminuiu, mas não eliminou completamente o sofrimento dos mais humildes.

Em compensação, Chico Xavier acabou transformando em sensacionalismo o sofrimento das famílias que perderam entes queridos, já que acabou se aproveitando das suas angústias para escrever mensagens apócrifas atribuídas aos espíritos dos falecidos, que não passaram de cartas criadas pela própria imaginação do "médium", a partir de informações que seus colaboradores colhiam das famílias.

A glamourização do sofrimento também foi um dado bastante negativo de Chico, porque ele sempre defendia o silêncio da prece em detrimento da luta para melhorias. Ele queria que as pessoas se conformassem com o sofrimento e acreditassem que o "alto" iria salvá-las um dia, criando uma inércia nas pessoas e uma pouca vontade em intervir contra suas dificuldades e limitações.

Dessa maneira, Chico Xavier errou muito e os acertos que cometeu eram tão pouco expressivos que não dão mérito algum de liderança ou maestria à sua pessoa. As pessoas deveriam desistir de tentar "salvar" Chico Xavier de ser retirado de seu pedestal, feito um "velocino de ouro" que é objeto de idolatria, credulidade de fanatismo. Quanto mais os espíritas se esquecerem de Chico Xavier, melhor.

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