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Guerra criptografada: Chico Xavier foi o diversionismo usado para salvar a ditadura militar



Brasil, 1975. A crise da ditadura militar, já evidente em 1974, quando o "milagre brasileiro" foi incapaz de conter a crise econômica, se agravou quando os coronéis do DOI-CODI, instituição atuante na prisão, tortura e morte de presos políticos, cometeram seu abuso de poder ao expor a morte do jornalista da TV Cultura de São Paulo, Vladimir Herzog, assassinado sem uma solicitação formal de ordens superiores para isso.

O episódio, que tentou ser abafado ao creditar a morte de "Vlado", como era conhecido, como um "suicídio" - montou-se uma cena para simular que ele "se matou", quando ele foi enforcado por um grupo de torturadores que o agrediram, ao saber que o jornalista se comportava de maneira insubmissa aos seus algozes - , expôs o abuso de poder dos coronéis, numa hierarquia abaixo dos generais, aumentando as crises e os conflitos internos na ditadura militar.

Junto a isso, há a ascensão do líder sindical Luís Inácio Lula da Silva, que atraiu multidões em seus discursos nas manifestações sindicais do ABC Paulista. O líder demonstrava, por suas ideias, uma figura que atraiu a atenção da opinião pública e, por isso, seria um grande opositor que colocaria a perder todo o projeto político da ditadura militar e das elites civis que o causaram.

Isso fez com que a estrutura civil que respaldava a ditadura militar se mexesse. Na cultura, os esforços foram feitos para aumentar a popularidade da música brega entre o público brasileiro, indo além das zonas rurais e de prostíbulos decadentes que consumiram esse tipo de música.

Apresentadores conservadores como Sílvio Santos, Edson Curi (o "Bolinha") e Raul Gil se tornaram propagandistas da música brega. Emissoras de TV também solidárias ao regime, mesmo a falida TV Tupi como as concorrentes TV Record e TV Bandeirantes, e, mais tarde, a TV Studios (embrião do SBT), também difundiram a música brega.

O mercado despejou, a partir de 1977, uma centena de ídolos bregas que emulavam de disco music e pop adulto romântico e uns apareciam de jeans em frente a estações de trem, como se fossem garotos-propaganda da US-Top.

A ideia é enfraquecer culturalmente o povo brasileiro, que também era bombardeado pela erotização do corpo feminino, representado sobretudo pelas revistas "de sacanagem", que viram seu mercado explodir na época, visando evitar o aumento das resistências contra a ditadura militar. A ideia era salvar o regime da maneira que possível, criando anestesiamento das classes populares através da exploração de instintos tanto sexuais e lúdicos quanto religiosos.

COM A "AJUDA" DE MALCOLM MUGGERIDGE

Um aspecto que chama a atenção de todos é o crescimento das religiões durante a ditadura militar, evidentemente não o Catolicismo, que marcadamente agiu em solidariedade às vítimas da repressão e escondia manifestantes estudantis para não serem presos pela polícia, mas outras que poderiam representar um respaldo conservador ao regime.

Aí entram tanto as seitas derivadas da protestante neopentecostal Igreja Nova Vida, a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja Internacional da Graça de Deus - respectivamente, de Edir Macedo e Romildo Ribeiro Soares, o R. R. Soares - , da igualmente atuante Assembleia de Deus, quanto o "movimento espírita", representado pela Federação "Espírita" Brasileira e pela atuação "independente" das federações regionais.

Embora inicialmente rivais, as seitas "neopentecostais" e o "movimento espírita" serviram, igualmente, como alternativa para a ditadura militar obter um suporte religioso conservador, já que a Igreja Católica atuava contra os interesses dos generais, e, embora clandestina, as ações da Teologia da Libertação pelas Comunidades Eclesiais de Base, que adotavam o Método Paulo Freire como método pedagógico, iam em contronto com os propósitos ditatoriais.

Havia muitos interesses em jogo no caso destas religiões. O aparente conflito entre "neopentecostais" e "espíritas", polarizado pelo respaldo midiático - Record, Bandeirantes e similares arrendavam cultos das "neopentecostais", enquanto Rede Globo, católica, via no "espiritismo" brasileiro um "Catolicismo à paisana" - , não seria um telecatch forjado para supor uma "diversidade" na fé?

Em todo caso, a atuação do "espiritismo" brasileiro serviu, à ditadura militar, para criar uma figura diversionista, com a múltipla função de supostamente promover a paz e caridade, enquanto tentava desviar a atenção dos brasileiros a figuras como o sindicalista Lula e a promover uma "resignação pela fé" diante das dificuldades do período ditatorial.

Esse sujeito era ninguém menos que Francisco Cândido Xavier, conhecido pelo apelido de Chico Xavier, e que se tornou um paiol de bombas semióticas que deveria ser levado em conta, em vez de ser tolerado e apreciado bovinamente dentro de um "mistério da fé" redivivo pelo igrejismo medieval dos "espíritas".

Moldado como "símbolo máximo de amor ao próximo", através de uma campanha que juntou propaganda enganosa com mistificação - afinal, não há prova alguma de que Chico Xavier realmente praticou caridade, as ações tão alardeadas nesse sentido ou são medíocres ou não passam de mentiras - , o "médium" ganhou uma narrativa que já valia no exterior, promovida pelo jornalista britânico Malcolm Muggeridge para "suavizar" a imagem reacionária de Madre Teresa de Calcutá.

"SÍMBOLO DA CARIDADE" CHICO XAVIER SÓ TORNOU A SER COM NARRATIVA LANÇADA PELA DITADURA MILITAR

Devemos prestar atenção que, antes de 1975, Chico Xavier nunca gozou, realmente, da imagem glorificada de sua pessoa, a não ser em âmbito regional, em Pedro Leopoldo e Uberaba, mal chegando a refletir em Belo Horizonte, da qual a terra-natal do "médium" integra a região metropolitana.

A imagem que predominava dele, e foi a que motivou o convite para ser entrevistado pelo programa Pinga Fogo, da TV Tupi, em 1971, era de um pitoresco indivíduo que se autoproclamava "paranormal", estando mais próximo de um fenômeno sensacionalista do que de um alvo de adoração popular.

Isso tanto era verdade que Chico Xavier não tinha a blindagem que recebe atualmente, como se o "médium" fosse "o PSDB que deu certo" ou um "tucano que ninguém captura" (PSDB era o partido que recebeu a simpatia do "médium" no final da vida), quando hoje nem o jornalismo investigativo (BBC Brasil, The Intercept etc) se encoraja a desconstruir o "médium" - a BBC, vergonhosamente, ventilou que "Chico Xavier fez obras de caridade" sem trazer fundamentação alguma.

Antigamente, Chico Xavier era desconstruído pelo jornalismo investigativo de verdade - o hoje esquecido caso de Attila Paes Barreto, no seu livro O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, de 1944, é um exemplo clássico - e literatos não mediam palavras para desqualificar a suposta mediunidade do beato de Pedro Leopoldo.

Além disso, um dado curioso é que a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referência em dados sobre a população brasileira e os fatores envolvidos em seu cotidiano, não mencionou Chico Xavier no verbete relacionado a Pedro Leopoldo.

Naquela época - os dados da EMB foram colhidos entre 1953 e 1958 - , Chico Xavier já tinha um cartaz na mídia nacional e na sociedade, embora em condições menos generosas do que as atuais. Mas, pelo bem ou pelo mal, ele era uma celebridade, e ainda vivia em Pedro Leopoldo nessa época,.

Só que o verbete do município de Pedro Leopoldo, disponível na página 320 do livro reproduzido neste link, não há uma única menção de Chico Xavier entre as personalidades ilustres locais, lembrando que a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros menciona alguns nomes ilustres do município, de certo modo veteranos: o "médium" já era fenômeno de mídia havia pelo menos duas décadas, em relação a 1959, ano do referido volume, o terceiro sobre cidades de Minas Gerais.

Também o município de Uberaba, onde Chico Xavier visitava periodicamente na época e virou o seu exílio a partir de 1959, após o escândalo das denúncias de Amauri Xavier, também não mencionou o nome do "médium", como mostra este referido volume, o quarto sobre cidades mineiras.

A narrativa que "santificou" Chico Xavier veio depois de 1971, quando O Cruzeiro, publicando mensagens atribuídas a Emmanuel, publicou uma foto do "médium" sorrindo com uma criança no colo, bem à maneira de Malcolm Muggeridge mostrando Madre Teresa também carregando uma outra criança. Começava a narrativa que, até hoje, seduz muitos e coloca muita gente a agir no piloto automático, divulgando "frases" de Chico Xavier nas redes sociais, sob o pretexto de "trazer alegria (sic) para todos".

Chico Xavier, portanto, era anti-lulista desde o começo, apesar dos esforços recentes de uma esquerda domesticada e anestesiada, que no "movimento espírita" encontra um potencial propagandista na figura de Franklin Félix, de usar supostas semelhanças, tão fictícias quanto superficiais, mas emocionalmente envolventes, que colocam "médium" e sindicalista como pretensas "almas gêmeas".

O "AME-O OU DEIXE-O" ASTRAL: O "MUNDO ESPIRITUAL" COMO "EXÍLIO" PARA OS DESCONTENTES DA DITADURA

A figura de Chico Xavier era diversionista sob muitos aspectos. Foi um líder religioso usado para anestesiar as massas diante da crise da ditadura militar. Chico era um sujeito que sempre pregou a conformação com a desgraça humana, e defendeu tanto a ditadura militar que a Escola Superior de Guerra o condecorou, o que traz a constatação, dolorosa para muitos, e bastante contraditória (um "defensor" dos oprimidos premiado pelos opressores), de que o "médium" colaborou, com gosto, com a ditadura militar que ele apoiou explicitamente, sem remorsos posteriores.

O diversionismo se deu porque o "sistema" promoveu a adoração a Chico Xavier - a mesma que coloca o "gado digital" para publicar "memes consoladores" com frases piegas do "médium" nas redes sociais - para evitar que Lula se tornasse mais popular, porque a sociedade conservadora já tinha um "ativista" para se contrapôr àquele "comunista" que agitava as massas promovendo greves e piquetes do proletariado raivoso.

Chico Xavier mostrava aspectos "dóceis" e "confortadores". E representou um propagandista a serviço da necropolítica que tanto promovia os mortos da repressão ditatorial quanto às tragédias humanas das convulsões sociais. E isso se deu a partir do truque das "cartas mediúnicas" (as "cartas marcadas", na definição de Waldo Vieira, rompido com o ex-colega após o escândalo Otília Diogo), verdadeira peça diversionista para entreter o povo diante da crise ditatorial.

Descontando o aspecto fake, confirmado com as comparações das "assinaturas espirituais" (não raro com a caligrafia do próprio Chico Xavier), e a confusa atribuição de que as "psicografias" seriam ditadas pelos "espíritos" ou escritas por "eles", nota-se que as cartas atribuídas a falecidos comuns, o que fez o "médium" se aposentar do uso dos nomes de grandes literatos, só eventualmente utilizado, sem muito alarde, eram uma forma de dizer que "morrer cedo é tão bonito".

Isso tem uma dupla interpretação: se as pessoas comuns, ao morrerem cedo, "estarão bem e felizes no outro lado", as vítimas da repressão ditatorial estariam "mais felizes ainda". Se um Jair Presente da vida foi para um "lugar melhor", imagine alguém com o destaque de Vladimir Herzog ou gente de coragem como Carlos Lamarca e Carlos Marighella? Eles estariam "em lugar melhor ainda"!

Foi nos anos 1970 que foi reabilitado um esquecido livro de Chico Xavier, Nosso Lar, adaptado a partir da novela A Viagem, de Ivani Ribeiro, transmitida pela TV Tupi - que blindava Chico Xavier e criou um lobby de atores e profissionais de TV chiquistas, o que facilitou o "médium" seduzir Humberto de Campos Filho com um evento de Assistencialismo "espírita" - , e gerou uma linhagem de "romances espíritas" ambientados no suposto "mundo espiritual".

O que deve ser lembrado é que o "mundo espiritual", até hoje, é um grande mistério. Apenas se tem noção, na humanidade da Terra, de sua existência pela interpretação filosófica, mas, cientificamente, inexistem vestígios de como seria realmente o "outro lado da vida". O que "sabemos" através de Chico Xavier são apenas especulações, feitas com o sabor das paixões materiais, que tentam, para o consolo coletivo, criar a ilusão de que "no outro lado" tudo é igualzinho à vida terrena.

A ideia do "mundo espiritual" foi trabalhada, nos anos 1970, como uma espécie de "Brasil: ame-o ou deixe-o" astral. Se você não segue a cartilha conservadora da sociedade vigente, as circunstâncias lhe farão você morrer. Mas aí a pessoa que interrompe, bruscamente, seus planos de vida - que dificilmente serão reconstituídos no mundo espiritual (alguém já viu, por exemplo, uma pessoa completar, na encarnação seguinte, um livro inacabado na anterior?) - e vai para um mundo onde, supostamente, se traduz de "forma melhorada" a vida terrena.

Isso é uma grande falácia, pois é feita sem qualquer tipo de fundamentação lógica, a mínima que for, nem qualquer tipo de embasamento teórico com a menor consistência possível. Trata-se apenas de um meio de justificar a "necropolítica" da ditadura militar, marcada pelo feminicídio, crimes no campo, pistolagem que atinge de bicheiros rivais a líderes comunitários, de operários a padres, e pelas convulsões sociais que envolvem de latrocínios a parricídios.

É uma maneira de desprezar o breve prazo que temos numa encarnação, porque para os "espíritas" tanto faz jogar fora uma encarnação inteira sem fazer o que se planejou. A encarnação posterior trará dificuldades para restituir e reconstituir a missão encarnacional perdida, e isso será doloroso para o reencarnado, que terá dificuldades para "reescrever" o "livro inacabado", tanto em metáfora quanto no sentido literal.

Essa guerra criptografada revela o caráter ultraconservador e reacionário de Chico Xavier, um sujeito que prestou grandes serviços para a ditadura militar e representou uma série de manobras que contaminaram o inconsciente coletivo dos brasileiros até hoje. Portanto, o conservadorismo de Chico Xavier é uma realidade indiscutível, porém renegada por uma boa parcela de brasileiros que se recusam o conflito humano, mas brigam permanente e desesperadamente com os fatos.

Se ao menos nossos esquerdistas deixarem de dizer amém a Chico Xavier, deixar de moldá-lo conforme o pensamento desejoso e vê-lo como um igrejista tão deplorável e medieval quanto Edir Macedo, pode ser que as nossas forças progressistas de esquerda reconstruam o caminho perdido em 2016.

Caso contrário, teremos a direita sempre protagonizando o caminho geral do povo brasileiro. Com as esquerdas, domesticadas e infantilizadas, rebolando o "funk" e orando para Chico Xavier, sob os olhares embasbacados de um Luciano Huck, a nossa direita ficará com as chaves do nosso país em suas mãos, dando continuidade ao processo iniciado com o golpe político de 2016, com ou sem um Jair Bolsonaro no comando.

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