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Recibos de Lula são "falsos". Ah, mas as "psicografias" do pseudo-Humberto de Campos são "verdadeiras", né?


Sendo uma espécie de versão invertida de Francisco Cândido Xavier - que até hoje é inocentado mesmo nos piores e comprovados erros - , o ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, que serve de "vidraça" para determinados setores da sociedade brasileira, é pressionado de todas as formas para ter seu caminho para a campanha eleitoral de 2018 ser interrompido de vez.

Condenado sem provas e quase sem direito de defesa, o ex-presidente Lula, que realmente promoveu altruísmo e consideração com o próximo num programa de inclusão social que permitiu que pobres entrassem nas universidades, os salários fossem mais valorizados, as leis de alguma forma respeitadas e as classes trabalhadoras tivessem um mínimo de dignidade, é alvo de profundo ódio que nos faz ficar apreensivos até se ele puder concorrer às eleições e sair vencedor e, depois, empossado.

O caso de Getúlio Vargas é um exemplo. Ele foi pressionado de tal forma que, diante do episódio do atentado ao opositor Carlos Lacerda, em 05 de agosto de 1954, criou-se uma comissão militar que, à maneira dos juízes da Lava Jato, passou a confundir investigação jurídica com investigação policial, criando a "República do Galeão" (onde se situava o comando da Aeronáutica, pois a vítima fatal do atentado foi um segurança de Lacerda, major daquela divisão, Rubens Vaz).

Hoje temos a "República de Curitiba", em alusão ao "quartel-general" da Operação Lava Jato, através do juiz Sérgio Moro e do procurador Deltan Dallagnol, aquele dos esquemas constrangedores de Microsoft Power Point. A Operação Lava Jato, embora aparentemente "acerte" na punição de alguns suspeitos (como os do PMDB carioca), age quase sempre ao arrepio das leis e dos princípios do Direito, mais parecendo os juízes, procuradores e policiais "valentões de toga ou farda policial".

Lula teve a "façanha" de ter seu processo movido pela 8ª turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre (a sigla é TRF-4) - os desembargadores João Pedro Gebran Neto, relator da Lava Jato no tribunal, Leandro Paulsen e Victor Luiz dos Santos Laus - , em tempo recorde, rápido demais para uma Justiça normalmente muito lerda, e tem seu julgamento marcado para o dia 24 de janeiro de 2018, o que muitos conservadores esperam ser o fim definitivo da Era Lula.

Junta-se isso com outros episódios, como os recibos de aluguel do apartamento de São Bernardo do Campo - que a esposa de Lula, hoje falecida, a ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva, pagou ao proprietário do imóvel, Glaucos da Costamarques - , que o Ministério Público Federal, na base do "achismo", definiu precipitadamente como "ideologicamente falsos" depois que recusou a fazer a perícia que, dois meses antes, julgou "imperativa", ou seja, "obrigatória".

Para complicar as coisas, o advogado de defesa de Lula, Cristiano Zanin Martins, solicitou uma perícia dos documentos que se constataram autênticos. Se a Lava Jato quisesse dar uma lição de moral, haveria ao menos que pedir nova perícia, e não se recusar a isso. O que mostra o medo que o MPF tem de admitir alguma vantagem a Lula, porque nenhum indício de fraude foi provado, neste caso.

E O "ESPIRITISMO"?

O contrário está com o "espiritismo" brasileiro. O que se faz contra Lula se faz em favor de Chico Xavier. É o mesmo processo, mas em direções contrárias: põe-se a lógica, a ética, o bom senso e a coerência para as favas, em nome da criminalização de um altruísta político e do endeusamento de um ídolo religioso.

Isso vem desde a ditadura militar. Os movimentos sociais vieram com Lula, como um ativista político e símbolo das forças progressistas. A mídia patronal e as elites conservadoras vieram com Chico Xavier, como um símbolo conservador de "bondade humana" e um ídolo religioso retrógrado para fazer frente aos pastores eletrônicos Edir Macedo e R. R. Soares.

Tudo o que Lula faz de verdadeiro é "falso" e tudo o que ele faz de bom é "ruim". Se ele investe mais em educação pública, é "corrupto". Se ele valoriza as riquezas nacionais, é "usurpador" e "monopolizador". Se ele valoriza os salários, "causa" déficit público e estoura o Orçamento. Se ele estimula o acesso de pobres, sobretudo negros, índios e mestiços, ele "promove desordem".

No caso do "médium" Chico Xavier, é o contrário. Tudo o que ele faz de falso é "verdadeiro" e tudo o que faz de ruim é "bom". Ele defendeu a Teologia do Sofrimento, que faz apologia das desgraças humanas. Se ascendeu de maneira suja, criando um suposto livro de poemas atribuído a escritores falecidos que apresenta sérios problemas de estilo e linguagem, e estranhamente sofreu cinco reparações, das quais se revelou que o livro foi concebido pela equipe editorial da FEB.

O caso de Humberto de Campos é ainda mais grotesco. Provavelmente para se vingar de um artigo irônico que o escritor maranhense fez do tal suposto livro de poemas, Parnaso de Além-Túmulo - soa risível o nome "parnaso" numa época, 1932, em que o Parnasianismo era coisa do passado e o Modernismo já se consolidara - , Chico, aproveitando da morte prematura de Humberto, resolveu inventar um sonho e se apropriar de seu nome, mudando totalmente de estilo.

Ninguém consegue entender por que os livros originais que Humberto de Campos escreveu em vida, mesmo algumas publicações póstumas, estão fora de catálogo no mercado literário. Mas essa incompreensão é fruto de desinformação: como as obras "psicografadas" que levam o seu nome e o do improvisado "pseudônimo" de "Irmão X" são fake, as obras originais foram deixadas para trás porque uma leitura comparativa poderia identificar fraudes.

Paciência, a FEB, que depois de seu surgimento buscou soar como um pastiche da Academia Brasileira de Letras, possui um forte lobby no mercado literário. Tem um grande estande em toda edição da Bienal do Livro e o poder descomunal da federação e de outros grupos do "movimento espírita", mesmo divergentes à FEB mas igualmente igrejeiros, tem ainda o apoio da Rede Globo de Televisão.

A leitura comparativa do Humberto de Campos original e do fake "mediúnico" identificariam facilmente as diferenças: o Humberto original tinha narrativa ágil, temática laica, texto culto mas acessível, linguagem descontraída e informal, e garantia leitura prazerosa. Já o "espírito Humberto de Campos" tinha um estilo muitíssimo diferente e uma qualidade literária estranhamente inferior.

O "espírito Humberto" ou o tal "Irmão X" tinha narrativa pesada, temática religiosa ou moralista, texto rebuscado e prolixo, linguagem melancólica e deprimente e sua leitura exigia o apego às paixões religiosas para soar próximo da "agradável". Porque, para ler essas obras tão cansativas, só mesmo tendo olhos de beato, até porque o "espírito Humberto" mais parecia um padre do que um acadêmico de letras.

Em muitos casos, essa obra mais parece pastiche do Novo Testamento do que do próprio Humberto. Identifica-se em muitos livros do "espírito Humberto de Campos" narrativas e passagens que mais parecem terem sido escritas por Marcos, Lucas, João ou Mateus, com temáticas bíblicas que, com toda segurança, o verdadeiro Humberto não se interessaria em escrever.

O caso foi tão aberrante, causando indignação nos meios literários, que Chico Xavier e a FEB foram condenados num processo judicial que, por sorte, era tímido. O advogado da família de Humberto de Campos, Milton Barbosa, como um Cristiano Zanin de seu tempo, entendia de leis e conhecia as irregularidades da obra "espiritual", nas quais se identificavam claramente cacófatos que o próprio Humberto não faria.

Mas a Justiça seletiva, que hoje inocenta tucanos e condena petistas por um único capricho de juízo de valor e manipulação ou burla das leis, deixou Chico Xavier na impunidade e seu mito cresceu como bola de neve. Hoje muitos insistem, num doentio e obsessivo apego emocional, manter a imagem de "santidade" de Chico Xavier, mas, pelo menos em 1944, ele era visto como um precedente religioso de Aécio Neves.

Não é por acaso que, num breve encontro no final da vida, Chico Xavier e Aécio Neves demonstraram admiração mútua e profunda (outro que possui afinidades com Xavier é o amigo de Aécio, Luciano Huck, que seguiu as lições do "médium" quanto à "caridade paliativa" que glorifica o "benfeitor" às custas de mero Assistencialismo). Em 1952, Chico Xavier, usando o nome de André Luiz, descreveu um herói político com as caraterísticas depois vistas em Aécio Neves, sobretudo o fato de ser nascido em Minas Gerais.

Dá pena os esquerdistas terem alguma consideração com Chico Xavier. O "médium" sempre foi conservador, era um moralista dos mais ranzinzas, defendeu a ditadura militar até o fim e, na disputa entre Collor e Lula, preferiu o "caçador de marajás". Defendia a Teologia do Sofrimento, corrente medieval do Catolicismo, a ponto de rejeitar debates e questionamentos, fazendo com que Chico defendesse que o sofredor aguentasse desgraças em silêncio.

Não se entende o que dá na cabeça de muita gente, mesmo de esquerda, considerarem Chico Xavier "progressista". Não existe uma razão coerente e objetiva para isso, pois as alegações são meramente emocionais e sem pé nem cabeça. Isso é o que dá sofrer fascinação obsessiva por "médiuns", um perigo que Allan Kardec já havia alertado no seu tempo, mas que os brasileiros ignoraram por completo.

O "espiritismo" apoiou o golpe político que levou Michel Temer ao poder. Apoia as amargas e injustas reformas, trabalhista e previdenciária, defendidas pelo presidente. Os "espíritas" também expressaram admiração por Sérgio Moro e pelo Movimento Brasil Livre, além de defenderem também a condenação total do aborto, até em caso de estupro (a vítima que se case com o estuprador!) e princípios pedagógicos da Escola Sem Partido.

Se as pessoas abrissem mão das sensações narcotizantes e anestésicas das paixões religiosas e da fascinação obsessiva ou mesmo a subjugação aos "médiuns", verá o quanto o "espiritismo" brasileiro possui aspectos bastante sombrios. E se o ódio a Lula nada tem a ver com isso, se enganam: os mesmos que glorificam Chico Xavier querem condenar e crucificar Lula. As redes sociais provam isso. Vivemos numa sociedade ultraconservadora cheia de mitologia e vazia de realismo.

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