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O feminicídio como "carteirada" para ocultar a tragédia machista

A TÍTULO DE COMPARAÇÃO - O JORNALISTA ARTUR XEXÉO MORREU MESES DEPOIS ANUNCIAR UM CÂNCER. JÁ O EX-COLEGA PIMENTA NEVES TEM SUA TRAGÉDIA ANUNCIADA HÁ TEMPOS E, APARENTEMENTE, AINDA NÃO MORREU.

No Brasil em que a Lei Maria da Penha, que prevê punição para a violência machista contra a mulher, a ideologia machista que prevalece no imaginário dos brasileiros traz a "carteirada" que faz com que os feminicidas não tenham sua tragédia reconhecida, apesar deles levarem às últimas consequências a masculinidade tóxica que massacra seus organismos e compromete sua saúde. É como se os homens que matassem suas mulheres fossem "proibidos de morrer".

O caso de Doca Street é ilustrativo. Enquanto, no passado, matérias da revista Manchete mostravam que a masculinidade tóxica do assassino de Ângela Diniz o poderiam fazer morrer cedo, pouco antes da morte dele a mídia tentou inventar uma imagem "saudável", como se Doca tivesse um "histórico de atleta". Inventou-se que ele virou até influencer, mas, como toda mentira tem perna curta, membros da família Street quase sempre apareciam nas redes sociais ostentando um semblante de luto, mesmo sob sorrisos, cientes da tragédia que há décadas envolveu o seu ente mais famoso.

Doca Street sofria de câncer desde meados dos anos 1980, embora provavelmente a doença tenha sido tardiamente diagnosticada. Seu rim estava condenado, mas os médicos deixaram passar a doação do órgão que não conseguiu salvar a vida de um sobrinho, em 1960, quando Doca tinha 60 anos. Seu tabagismo intenso lhe dava uma aparência envelhecida, mesmo nos padrões humanos dos anos 1970 e 1980 e, no julgamento de 1981, Doca parecia ter dez anos a mais do que os 47 anos da época.

O assassino de Ângela Diniz era afeito a eufemismos, até porque machistas não abrem jogo de suas fragilidades. Se ele estava com câncer e ia para uma sessão de quimioterapia, ele alegava que ele "apenas sofria uma pneumonia, que era curada após uma internação". A estranha ênfase com que, em suas últimas entrevistas, Doca Street descrevia sua "dislexia" dava indícios de que ele sofria do Mal de Alzheimer. Quanto a estar "bastante ativo" nas redes sociais, ele não tinha forças físicas nem mentais, aos 81 anos, para enfrentar haters na Internet, e o trabalho era feito por algum assessor.

É contraditório considerar, como faz o senso comum, que feminicidas estão livres da própria tragédia, pelo simples fato de "mostrar a morte" para suas mulheres. Por muito pouco, o engenheiro carioca Paulo Arronezi, que matou a juíza Júlia Andrade, não sofreu infarto, pela combinação de fúria intensa com que ele esfaqueou sua ex-mulher e as súplicas das filhas para que ele não a matasse. Aos 52 anos, Arronezi tem um físico fora de forma e a energia da fúria deve lhe trazer problemas cardíacos no futuro.

FEMINICIDAS A POUCOS PASSOS DO CEMITÉRIO

Hoje temos três feminicidas na casa dos 80 anos: o ex-jornalista Pimenta Neves, o engenheiro Roberto Lobato e o ex-cantor brega Lindomar Castilho. Dos três, Pimenta Neves, que cometeu o crime mais recente, matando Sandra Gomide em 2000, é o mais doente, com indícios de diabetes crônica, câncer na próstata, hipertensão e possível falência múltipla de órgãos.

Todos os três já não apresentam notícias muito recentes. As mais recentes sobre Roberto Lobato foi sua aparição num evento de construção pesada de Belo Horizonte, noticiado em 2015 por uma revista local. Lindomar Castilho anunciou que não canta mais em 2012. Pimenta Neves teve uma internação por hipertensão noticiada em 2017.

Apesar disso, muitos acreditam que os três feminicidas "estão saudáveis" e "não parecem morrer tão cedo". Creem que os três, quando muito, só sofrem "doenças da velhice" e não há indícios de que eles podem morrer a qualquer momento, embora isso seja muito provável de acontecer.

Isso faz com que Pimenta Neves, a exemplo de Doca Street, seja alvo de especulações surreais. Desde 2011 que se anuncia que o assassino de Sandra Gomide "tem fortes indícios de contrair câncer na próstata" e, dez anos depois, não há sinal da doença e nem da morte do feminicida.

A título de comparação, há poucas semanas o jornalista Artur Xexéo anunciou que estava sofrendo de um linfoma, um tipo de câncer, e, poucos dias depois, faleceu, surpreendendo a todos., com 77 anos de idade. 

Pimenta Neves tinha 74 anos quando foi noticiado o câncer na próstata, mas, com um histórico de um homem que também fumou ao longo da vida e, após cometer um suicídio, ingeriu uma overdose de comprimidos (o que não faria, logicamente, do ex-jornalista alguém mais forte que Heath Ledger, ator famoso por ter morrido por uma overdose acidental de comprimidos), ele supostamente "está bem", apesar de relatos de que ele ficou cego por causa da diabetes.

Mesmo feminicidas não tão velhos assim, como Marcelo Bauer, foragido desde que matou a namorada a facadas em 1987, e Igor Ferreira, promotor que mandou assassinar a esposa Patrícia Aggio Longo em 1998, estão potencialmente sujeitos a tragédias repentinas. O primeiro, por estar fora de forma e, possivelmente, diabético e com potenciais problemas no coração, o segundo por um comportamento estranho - foi visto estranhamente magro quando ainda era foragido - que potencialmente lhe pode fazer morrer a qualquer momento de mal súbito. Até mesmo o relato do pai de Igor de que o filho "está bem" parece um eufemismo para quem quer dizer, talvez, que "o filho está doente e quer repousar".

Feminicidas tendem a viver 80% da expectativa de vida dos cidadãos comuns. Ou seja, com base no Censo, a expectativa de vida de um feminicida considerado "saudável" e "de boa aparência e posição social" está em torno de 60 anos de idade. Nessa lógica, Doca Street faleceu em condições semelhantes às de um homem comum de 107 anos.

O moralismo religioso e punivitista, associado ao machismo predominante no Brasil, ignora essa tragédia, por motivos que variam da superstição (com base em lendas de fantasmas de feminicidas assombando casarões abandonados no exterior), do perdão tóxico (em que a solidariedade da vítima é transferida para a do algoz) ou mesmo de uma moral vingativa (desejar que o algoz "viva muito" para "pagar pelo que fez"), neste caso sem efeito prático, pois muitos feminicidas acabam "vivendo bem" depois da meia-idade.

Mas a lógica é que a masculinidade tóxica dos feminicidas constrói suas tragédias. Eles matam suas mulheres à vista e matam eles mesmos a prazo. É ilógico admitir que o tipo inofensivo de machista seja a única vítima da masculinidade tóxica, enquanto homens mais violentos, que matam suas mulheres, sejam poupados mesmo quando cometem descuidos à saúde e são fisicamente abalados pelas próprias pressões emocionais, que incluem a perigosa bipolaridade emocional que alterna fúria  e depressão.

Desse modo, os homens que matam suas mulheres são justamente os primeiros a trabalhar a própria morte, seja por doenças ou acidentes de trânsito, entre outras tragédias. Eles fazem mal a si mesmos e é isso que tem que ser levado em conta, diferente da ilusão "antropofágica" de que um homem, matando a própria mulher, estaria lhe roubando uns anos a mais na vida. Pelo contrário, um feminicídio acaba subtraindo, de forma surpreendente, os anos de vida que restariam para seu praticante.

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