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Mídia não noticia mortes de feminicidas para "não assustar"


Notaram que a grande imprensa quase não noticia mortes de feminicidas? A não ser quando o contexto obriga, os feminicidas "desaparecem" sem deixar rastros. Num contexto em que se noticia até morte de gandula de futebol de várzea, os homens que assassinam suas mulheres ou, em certos casos, amigas, parceiras ou clientes de algum evento, simplesmente "somem de cena", e, de tão divinizados pela sociedade machista brasileira, devem "se ascender ao Senhor".

Os obituários no Brasil precisam ser seletivos, de modo que pareça lista do Prêmio Nobel. Quase sempre com pessoas legais, gente admirável e até gente não tão admirável assim, mas que parece estar bem na fita. Tudo isso porque é necessário dar a impressão de que a morte é apenas inevitável para os escolhidos.

Já os assassinos, principalmente feminicidas, eles "não morrem". Talvez seja até compreensível que a imprensa não noticie mortes de pistoleiros, jagunços, justiceiros, capangas e milicianos, que em boa parte não chegam a viver 60 anos de idade, para não sobrecarregar nossa mídia com falecimentos de gente que, salvo exceções, possui projeção meramente regional.

Mas feminicidas que chegam a ocupar o noticiário nacional com os chamados "júris populares", eles "nunca morrem". É bem provável que, dos feminicidas que cometeram seus crimes entre 1970 e 2010 e não se suicidaram, já estejam falecidos, sem que a opinião pública tivesse noção.

Num contexto em que jornalistas morrem naturalmente, a opinião pública tem dificuldade de se preparar para o óbito de Antônio Marcos Pimenta Neves, com idade avançada de 82 anos. Ele matou a colega jornalista Sandra Gomide, ex-namorada, em 2000. Pelo menos o IG vazou que ele estava ficando cego por diabetes e apresentava indícios de câncer na próstata, há cinco anos. E, pelos efeitos que podem causar uma overdose de comprimidos, Pimenta Neves deve também estar sofrendo de falência múltipla dos órgãos.

Já o empresário Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, poderia estar morto há 30 anos pelo histórico tabagista e toxicômano que teve no seu auge, fumando o equivalente a três José Wilker, consumindo cocaína como um Nelson Gonçalves e tomando álcool como um João Ubaldo Ribeiro.

Num aspecto típico de história surreal, Doca Street, cuja saúde preocupava os próprios amigos nos anos 1970 e 1980, foi "beneficiado" pela indústria das fake news que, volta e meia, visita as páginas da imprensa profissional, e inventaram que ele "estava muito ativo nas redes sociais" aos 81 anos (em 2015), quando sabemos que, nessa idade, ele não contava com forças físicas nem psicológicas para encarar haters na Internet. Quem "atuava" em seu nome nas redes sociais eram seus assessores e familiares, estes sim com coragem para encarar haters.

A Natureza nos revela que, da forma como Doca Street fumou no passado, ele apresenta indícios de câncer em estágio avançado, pulmão enfraquecido, problemas cardíacos. Com a ênfase com que ele dizia "ter uma leve dislexia", infere-se que ele já sofria do mal de Alzheimer, pelo menos, desde os 70 anos. A dislexia seria um eufemismo de um machista que nunca revela suas fragilidades. Além disso, ele doou um rim, sem sucesso, a um sobrinho, que faleceu por rejeição a esse órgão.

Paciência. Todos morrem um dia, mas falar de feminicida morrendo ou perto de morrer é um tabu até mesmo entre as feministas, que preferem ver esse tipo de criminoso uma espécie de "Super-Homem do mal". E a sociedade conservadora, em geral, reage de maneira bastante confusa quando o assunto é a vida trágica de um feminicida.

Os moralistas se irritam e se enrolam, num momento dizendo "E eu com isso? Morreu, tá morto!" e "Deixem o feminicida viver em paz!". Ninguém quer ser informado de um feminicida num leito de hospital ou um feminicida relativamente jovem, com seus 50 e tantos anos, sofrendo infarto fulminante em sua casa e sendo encontrado morto na manhã seguinte pela faxineira do edifício.

Há também, entre esses moralistas, uma abordagem seletiva da morte. Se morre um ator de teatro de vanguarda, de câncer, aos 55 anos, os moralistas sentem uma tristeza resignada. Se morre um músico de heavy metal, na mesma idade e pela mesma doença, comemoram, dizendo que o defunto "já vai tarde". Mas se é um feminicida que havia deixado a cadeia tempos antes, os moralistas vão correndo pegar um copo de água com açúcar e o primeiro envelope de Rivotril que estiver à frente.


Isso é tão surreal que poucos se esquecem que os feminicidas passam o resto da vida sofrendo pressões emocionais fortes e conflituosas, em muitos casos oscilando entre o orgulho de ter matado aquela "mulher safada" e a vergonha do ato cometido. Eles podem até sair do país e viajar pelo mundo, mas não podem jamais comparecer a eventos comemorativos como o reencontro de antigos colegas de escola.

Ninguém percebe que as pressões emocionais podem fazer um feminicida adoecer e morrer de repente, em boa parte das vezes de forma prematura. Lindo é figurante de novela morrer de infarto, cantor de MPB morrer de mal súbito, ator de seriado teen sofrer acidente vascular cerebral, poeta performático morrer de câncer antes dos 60 anos de idade.

Mas ninguém consegue parar para pensar, por exemplo, se, em vez do músico Marcelo Yuka (ex-O Rappa) - que, ironicamente, ao fazer a versão de "Hey Joe", sucesso de Jimi Hendrix de autoria de Billy Roberts, cuja letra era direcionada a um hipotético feminicida, incluiu o verso "também morre quem atira" - , falecesse, por AVC, o xará Marcelo Bauer, que em 1987 matou a namorada com 30 facadas e fugiu do país e, ultimamente, anda velho e gordo para um mero cinquentão.

A Natureza cobra de feminicidas que se irritam constantemente e que, quando matam, seus organismos produzem adrenalina em quantidades industriais, causando o efeito próximo ao da primeira tragada de um crack, as doenças correspondentes. 

Os males mais frequentes associados aos feminicidas incluem infarto, câncer, mal súbito, AVC e, por seu nervosismo, podem também morrer em acidentes de trânsito, quando conduzem algum veículo de transporte, como moto ou automóvel. Se, ao cometerem seus crimes, fugirem conduzindo pequenos aviões, o risco de morrerem em acidente aéreo é quase total.

Em muitos casos, um feminicida chega à velhice, mas que riscos de infarto, males súbitos, paradas cardiorrespiratórias, não apareceram ao longo do tempo? No caso de Doca Street, quantos remédios e tratamentos caríssimos ele, de uma família de magnatas, não teria importado para evitar sua morte prematura que era quase certa naquele fim dos anos 80?

O que se desconfia dessa omissão da tragédia dos feminicidas? Até hoje se cobra, por exemplo, o paradeiro do empreiteiro Roberto Lobato, de Belo Horizonte, que em 1971 matou a tiros a ex-mulher, Jô, e no júri alegou "legítima defesa da honra", sendo posto em liberdade. Ele já não era necessariamente um garotão, naquela época em que cometeu o crime. Será que vão inventar que ele também "está hoje muito ativo nas redes sociais"?

Ninguém fala se Roberto Lobato - um binômio tão comum quanto Raimundo Nonato - está vivo ou não. Para se ter uma ideia, David Bowie lançava disco quando Lobato assassinou sua esposa e nós estamos claramente informados que o cantor inglês faleceu em 2016.

Não há como entender por que a imprensa esconde a tragédia dos feminicidas, que por suas pressões emocionais chamam a morte para, ao menos, "paquerá-los". Muitos fumam, consomem drogas, se embriagam e tomam remédios tarja-preta e anabolizantes, além de dirigirem em alta velocidade. Mesmo assim, a tragédia de um feminicida, com fartas evidências e argumentação lógica, é ainda considerada um tabu tanto para quem os defende quanto para quem os repudia.

"LÓGICA" HERODIANA

A gente fica perguntando por que não há notícia na imprensa. Será medo de que as feministas comemorem esses óbitos e os haters saiam por aí escrevendo "Bem feito" ou "Já vai tarde" nas redes sociais? Se esse é o problema, não faz o menor sentido, porque quando um petista morre, a farra dos haters será sempre maior (ainda que "multiplicado" por algoritmos e fakes de Internet) e mais barulhenta.

Desconfia-se, num contexto de sociedade ultraconservadora e obscurantista que se formou desde a ditadura militar, que é um projeto das elites reduzir a população brasileira. É uma "lógica" perversa, que os especialistas em Império Romano atribuíram ao real motivo do rei Herodes (que reinava em Israel como rei-cliente e, em seu tempo, já cometeu um feminicídio) mandar matar bebês, que erroneamente se atribuiu ao extermínio de um potencial líder humanitário. Os infanticídios ocorriam pela brutal e grotesca lógica de controle populacional.

Neste caso, o feminicídio no Brasil é "socialmente aceito" porque, indo além de Herodes, se antecipam as coisas. Em vez de matarem bebês, matam primeiro suas mães. E a omissão das tragédias que envolvem feminicidas pela grande imprensa é feita para "não assustar" os machistas temperamentais de plantão que resolvem problemas conjugais com a violência assassina.

Desse modo, o perverso sistema de valores que impulsionou a vitória eleitoral de um projeto fascista e de um programa maligno de retrocessos sociais tem por objetivo ocultar a tragédia de um feminicida para não assustar futuros criminosos, que podem continuar matando suas mulheres enquanto vivem a ilusão de acharem que podem viver 110 anos numa boa.

No entanto, vazam fraquezas aqui e ali envolvendo assassinos de mulheres (não só as namoradas ou esposas, mas as vezes colegas de trabalho e amigas, comprometidas com outros homens, bem mais inofensivos e respeitosos a elas).

A estranha perda de peso e o abatimento físico do ex-promotor Igor Ferreira da Silva, que mandou matar a esposa, grávida, Patrícia Aggio Longo, em 1998, narrado por seus amigos quando ele era foragido e procurado pela Interpol, é indício de tragédia, do mesmo modo que, após ser preso e posto em liberdade, o pai do criminoso alegou que o filho "está bem", o que soa eufemismo para alguém que pode ter uma doença grave e está escondendo o jogo. Sem falar que, se o pistoleiro que atirou em Patrícia fugir da prisão um dia, é provável que ele possa matar o ex-promotor.

Se desvendarmos muito os fatos, veremos que os feminicidas produzem sua própria tragédia, porque tirar a vida de alguém gera prejuízos irreparavelmente enormes. São atos em que o egoísmo humano atinge suas últimas consequências, não sendo um desabafo pequeno de machistas enfurecidos que "surtam", matam e depois voltam para casa tranquilos. Eles vivem a tragédia diária apavorados com o dia em que eles é que serão os mortos. Também morre quem atira.

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