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Quando o assunto é questionar Chico Xavier, não se pode deixar para lá



Há um grande descaso das pessoas quando a necessidade é de questionarmos e investigarmos a deturpação do Espiritismo e, sobretudo, o mito do grande deturpador Francisco Cândido Xavier, popularmente conhecido como Chico Xavier.

Esquerdistas, ateus, intelectuais independentes, acadêmicos, juristas, todos se tornam impotentes em enfrentar o mito, construído há 40 anos para atender à demanda não de espíritos superiores, mas dos generais da ditadura militar que precisavam de um pretenso pacifista para servir de "cortina de fumaça" para a crise sócio-política do período.

O pessoal todo caiu na pegadinha e se rendeu ao canto-de-sereia de Chico Xavier com sua imagem associada a jardins floridos, céus ensolarados e crianças, aves e bichinhos fofinhos. Nem personagem de animação da Disney tem esse benefício tão fantasioso e é vergonhoso ver pessoas crescidas se renderem a tamanho apelo de "bombardeio de amor", o perigoso truque de manipulação mental caraterístico por fortes apelos de suposta beleza e afetividade.

Se nem o Cinegnose, capaz de enxergar aspectos complicados em narrativas de ficção científica de Hollywood ou identificar narrativas surreais no cinema eslavo, consegue ter um pingo de questionamento em torno de Nosso Lar, uma cidade ficcional que Chico Xavier usou para forçar seus seguidores menos privilegiados a aceitar calados a desgraça que sofrem, então estamos perdidos.

Viramos reféns de um deturpador do Espiritismo que usava (e "continua" usando, postumamente) os termos "caridade", "paz e fraternidade" e até mesmo "liberdade religiosa" como carteirada para sua promoção pessoal como pretensa unanimidade. É um grande horror ver o esperto Chico Xavier virar uma pretensa unanimidade, mesmo fazendo coisas terríveis como fraudes psicográficas e defender ideias reacionárias.

A IDEIA NÃO É "DEIXA PRA LÁ"

O que temos que pedir aos esquerdistas, acadêmicos, ateus etc que manifestaram, na sua boa-fé, uma admiração pelo reacionário e mistificador Chico Xavier, é que precisam fazer seu mea culpa, a exemplo do que fez, em seu tempo, o escritor Agrippino Grieco.

O notável escritor brasileiro havia sido deslumbrado pela suposta psicografia atribuída ao falecido amigo Humberto de Campos, conforme havia dito em reportagem do Diário de Notícias, de 21 de setembro de 1939, quando Agrippino foi para Belo Horizonte ver uma "sessão mediúnica" de Chico Xavier.

A fascinação obsessiva assombrou a mente de Agrippino Grieco, que praticamente ficou em transe e registrou suas impressões iniciais com estas palavras:

"Será uma interpretação digna de respeito. Quanto a mim, não podendo aceitar sem maior exame a certeza de um "pastiche", de uma paródia, tive, como crítico literário que há trinta anos estuda a mecânica dos estilos, a sensação instantânea de percorrer um manuscrito inédito retirado do espólio do memorialista glorioso.

Eram em tudo os processos de Humberto de Campos, a sua amenidade, a sua vontade de parecer austero, o seu tom entre ligeiro e conselheiral. Alusões à Grécia e ao Egito, à Acrópole, a Tiresias, ao voo de Ísis muito ao agrado do autor dos "Carvalhos e Roseiras". Uma referência a Sainte-Beuve, crítico predileto de nós ambos, mestre de gosto e clareza que Humberto não se cansava de exaltar em suas palestras, que não me canso de exaltar em minhas palestras. Conjunto bem articulado. Uma crônica, em suma que, dada a ler a qualquer leitor de mediana instrução, lhe arrancaria este comentário: "É Humberto puro!".

Fiquei naturalmente aturdido...

Depois disso já muitos dias decorreram e não sei como elucidar o caso. Fenômeno nervoso? Intervenção extra-humana? Faltam-me estudos especializados para concluir (...) Mas, repito-o com a maior lealdade - a mensagem subscrita por Humberto de Campos profundamente me impressionou...".

O jornalista Attila Paes Barreto, no livro O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, lançado em 1944, procurou mostrar as irregularidades das obras do "médium", comparando a analogia das obras que supostamente evocam diferentes autores espirituais mas que, em que pesem os simulacros de "diferenças estilísticas" (na não-mencionada Irma de Castro Rocha, a "Meimei", que foi "psicografada" anos após o livro jornalístico, depois do falecimento da jovem em 1946, a linguagem lembra a de livros infantis), tudo é o estilo e o pensamento pessoal de Chico Xavier.

Um desiludido Agrippino Grieco segue-se em declaração dada em 26 de junho de 1944, na época do julgamento do caso Humberto de Campos, dada ao jornal Diário da Noite:

"A Humberto de Campos, entretanto, penso que já bastariam os livros por ele escritos ainda em vida, para que sua glória se tornasse imperecível. Os livros póstumos ou pretensamente póstumos nada lhe acrescentam à glória, sendo mesmo bastante inferiores aos escritos em vida. Interessante: de todos os livros que conheço como sendo psicografados, escritos por intermédio da mão ligeira de um médium, nenhum se equipara aos produzidos quando era o escritor que fazia a pena deslizar sobre o papel. O mesmo sucede com as obras do espírito de Vítor Hugo, "apanhadas" aqui no Brasil e em português. Parecem-me todas de um Vítor Hugo em plena caducidade, com uma catarreira senil das mais alarmantes... Outra coisa: em geral esses livros só se reportam a coisas terrestres: não são livros do além, mas simplesmente do aquém, retrospectivos, autobiográficos, de um mundo que já conhecemos miudamente...".

Diante disso, como não se pode haver jornalismo investigativo que ponha em xeque o mito de Chico Xavier? Até mesmo a "caridade", que se torna a desculpa esfarrapada para blindá-lo até das acusações de seus piores erros, é sacada como se fosse uma carta na manga. Qualquer questionamento mais enérgico contra Chico Xavier é só usar as palavras "bondade" e "caridade" para afastar qualquer inquérito.

"LIBERDADE DE CRENÇA" NÃO PODE SER "LIBERDADE DE ACREDITAR EM MENTIRA"

O que até mesmo os intelectuais têm medo de sequer cogitar é que, em relação a Chico Xavier, há a confusão enorme entre "liberdade de crença" e "liberdade de acreditar em mentira". As suas pretensas psicografias apresentam indícios de fraudes diversos, com provas não só de irregularidades mas de participação de editores da Federação "Espírita" Brasileira, e as "cartas mediúnicas", além de apresentar indícios de pesquisas bibliográficas, mostram vestígios de "leitura fria".

"Leitura fria", para quem não sabe, é uma técnica de manipulação e interpretação mental. O entrevistador faz o entrevistado ser envolvido emocionalmente no diálogo, forjando um caráter intimista e afetuoso. A partir daí, o entrevistado descreve aspectos pessoais de um ente querido morto bem mais complexos e estabelece reações emotivas que podem fornecer informações para o entrevistador, como a forma de reagir a certas descrições e dados específicos.

Com isso, além do fato de que as "casas espíritas" entrevistam diferentes parentes e amigos de um morto, que oferece informações que uns desconhecem de outros - o que reforça o mito de pretensa autenticidade das "psicografias", devido às "informações menos acessíveis" que, por exemplo, uma tia ou professora conhecem e os pais do morto, não - , se produzem informações "mais complexas" que recheiam a "psicografia" de detalhes "mais difíceis".

Dito isso, não há como apelar para a "liberdade de crença", por exemplo, para supor "autenticidade" em supostas psicografias que carregam os créditos de Humberto de Campos e Jair Presente. A coisa não pode girar em torno do "pensem como quiserem", porque as "psicografias" apresentam fraudes muito grotescas e fogem dos estilos pessoais dos falecidos conhecidos em vida.

Aceitar supostas psicografias como "liberdade de crença" é uma aberração deplorável, abominável e preocupante. É coisa de fazer jornalistas produzirem enxurradas de textos indignados e não ficar cheios de dedos diante de uma figura como Chico Xavier, bastante traiçoeira e duvidosa.

Afinal, como aceitar que uma pessoa se aproveite do prestígio religioso e da adoração que recebe, por sua aparência "frágil e ingênua", para usar o nome do morto de sua escolha e produzir da própria mente (apesar de alegar que "não tem consciência" dessa atividade) mensagens de propaganda religiosa, que destoam de aspectos pessoais do respectivo falecido e servem para promoção pessoal do "médium", mesmo às custas de grande polêmica?

QUE VENHAM NOVOS ATTILAS CORAJOSOS, NOVOS AGRIPPINOS DESILUDIDOS

Pedimos para que pessoas que, recentemente, manifestaram sua boa-fé por Chico Xavier, como os jornalistas Ribamar Fonseca e Ricardo Kotscho e intelectuais como o semiólogo paulista Wilson Roberto Vieira Ferreira, do Cinegnose, e o carioca Nelson Job, manifestem sua mea culpa pela tão ingênua adoração a alguém que se apresenta como "iluminado (mas imperfeito)" e na verdade teve uma trajetória deplorável.

Pedimos para que eles possam se desiludir e pensar um pouco, em vez de adotar o clima de "deixe pra lá" e do "pensem como querem", que usam o pretexto da "liberdade de crença e pensamento" para legitimar a mentira, quando ela se apoia pela máscara da religião.

Agrippino Grieco foi um exemplo de como alguém pode até se deslumbrar numa ocasião e se desiludir em outra, amargurado com os esclarecimentos que teve em relação à suposta psicografia que levava o nome do seu amigo Humberto.

E Attila Paes Barreto, jornalista investigativo que não se iludiu com o "mundo da fantasia" de Chico Xavier (até porque esta é uma criação recente, do consórcio Globo/ditadura militar inspirado em Malcolm Muggeridge), mostrou esse caminho da realidade que fez Agrippino parar para pensar e assumir sua desilusão.

Paciência, pessoal! Não podemos usar o prestígio religioso de alguém, alvo de intensa adoração (mas agora sob a desculpa das "imperfeições" dos "médiuns que sempre erram"), para jogar no lixo a lógica e o bom senso, ou mesmo a transparência e a honestidade humana.

De maneira vergonhosa, reportagens que lembraram os 150 anos de morte de Allan Kardec mas pareciam comemorar a idolatria a Chico Xavier, mencionaram sua suposta caridade - aos moldes tendenciosos que hoje se faz com Luciano Huck - sem que se diga seus resultados (que, em verdade, se revelam bastante medíocres).

Não é errado um esquerdista manifestar repúdio a Chico Xavier, que foi reacionário e anti-petista por toda a sua vida. Não é errado um intelectual repudiar Chico Xavier por ver nele um repertório malicioso de mistificação. Não é errado um ateu rejeitar Chico Xavier, até porque este era um deísta fanático, dentro do catolicismo ortodoxo que o "médium" sempre professou.

Dizia Allan Kardec: é melhor que caia uma pessoa, do que uma multidão. No caso brasileiro, é melhor que se rejeite Chico Xavier do que deixar o nosso país sucumbir a retrocessos e tragédias. Bondade e caridade não são patrimônios privados de pessoa alguma, e ninguém pode se tornar o símbolo exclusivo de tais virtudes, ainda mais quando a prática das mesmas, no caso de Chico, foi extremamente medíocre e de baixíssimos resultados sociais.

Devemos abrir mão da idolatria religiosa, nos desiludir, em vez de jogar nossas crenças na gaveta. Da mesma forma, devemos abrir mão dessa idolatria e não apenas admitir que "médiuns podem errar muito", mas seguir os conselhos de Erasto e repelir Chico Xavier como um deturpador doutrinário que ele sempre foi, rebaixando o Espiritismo a um roustanguismo tropical.

Romper com Chico Xavier é fundamental para libertar as pessoas das amarras da fascinação obsessiva, e reconhecer o "médium" como um "inimigo interno" do Espiritismo, devido aos comprovados desvios doutrinários, muitos gravíssimos, feitos pelo "médium", é doloroso, mas bastante realista.

Libertar o Brasil de Chico Xavier é uma urgência para tirar o Brasil de seus flagelos e dar fim à sua humilhante posição de refém da idolatria religiosa, mesmo disfarçada por desculpas do tipo "todo mundo erra, até os médiuns". A ideia não é admitir que "médiuns possam errar muito", mas, sim, repudiar e rejeitar os "médiuns" pelos graves erros feitos contra a Doutrina dos Espíritos.

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