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Ator de TV mostra o humanismo que os "médiuns espíritas" não têm


Ser humanista é alojar meia-dúzia de pobres e doentes em alguma residência - pode ser sobrado, mansão etc - , sob o pretexto da caridade, e sair fazendo turismo ao redor do planeta para receber medalhas e prêmios por uma oratória rebuscada de palavrinhas bonitinhas? Não.

A grande lição de humanismo que tivemos na semana passada partiu de um ator de TV, que desistiu de divulgar um livro seu para se solidarizar a outras pessoas. E ainda foi um ato de solidariedade dupla, manifesto com serenidade e humildade.

Pedro Cardoso, conhecido pelo seriado A Grande Família, da Rede Globo, iria divulgar um romance que ele estava lançando, O Livro dos Títulos, no programa Sem Censura, da TV Brasil, ligada à Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), de propriedade do Governo Federal (atualmente sob responsabilidade de Michel Temer). Foi na última quinta-feira, 23.

Quando a apresentadora do programa, Katy Navarro, fez a primeira pergunta, Pedro Cardoso foi enfático. Disse que não iria responder esta nem qualquer outra pergunta, pois havia encontrado a EBC em greve. Ele não estava a par dos motivos da greve dos funcionários da EBC, a não ser o fato de terem sido contra as arbitrariedades do governo Temer, que congelou os salários dos trabalhadores da empresa midiática.

Pedro afirmou que os funcionários estão com a razão ao entrarem em greve, e acrescentou também a sua decisão de abandonar o programa por estar indignado com a atitude do presidente da EBC, o jornalista Laerte Rímoli, de ter compartilhado mensagens ofensivas à atriz Taís Araújo, que em uma palestra afirmou que a cor do filho dela "faz com que as pessoas mudem de calçada".

Rímoli compartilhou postagens alheias que debocharam da declaração de Taís Araújo, também vítima de um comentário grosseiro de um secretário da Prefeitura do Rio de Janeiro, que xingou o comentário da atriz de "idiotice".

Duas postagens foram difundidas na Internet, uma com uma fotomontagem mostrando uma menina branca correndo e, ao fundo, Taís Araújo com um de seus filhos, com a legenda "Quando você percebe que é o filho de Taís Araújo na calçada". Em outro meme, um executivo saltando de pára-quedas ilustra a mensagem ao constatar que Taís Araújo estava a bordo".

Taís é casada com o ator baiano Lázaro Ramos. Ambos são colegas de elenco do seriado Mister Brau, da Rede Globo de Televisão. Os dois têm um casal de filhos, sendo o menino descrito pela atriz no seu comentário sobre seu cotidiano.

Pedro abandonou o programa, manifestando profundo respeito pelos funcionários da EBC e pela equipe do Sem Censura. Fez um longo discurso afirmando que todos os brasileiros têm sangue africano e, ao se levantar, abraçou a apresentadora, que compreendeu a atitude do ator e o apoiou. Em seguida, Pedro Cardoso se juntou aos funcionários em greve e postou um vídeo ao lado deles.

Muitas pessoas chamam a atenção pelo fato de Pedro Cardoso ter interpretado o jornalista Fernando Gabeira no cinema, em O Que é Isso, Companheiro?, de 1997. Infelizmente, porém, o próprio Gabeira abandonou sua antiga reputação de símbolo histórico das esquerdas brasileiras e tornou-se um conservador de centro-direita, embora tivesse aparecido, recentemente, ao lado de dois membros do grupo fascista Movimento Brasil Livre, Kim Kataguiri e Fernando Holiday.

"MÉDIUNS" NADA HUMANISTAS, APOIANDO POLÍTICOS DECADENTES

Compare a atitude improvisada de Pedro Cardoso com a dos tão festejados "médiuns espíritas", que carregam, de graça, a imagem de "humanistas", apenas pelo prestígio religioso que possuem e os faz serem badalados até nas colunas sociais.

Um bom exemplo foi a atitude até agora nunca devidamente explicada do "médium" Divaldo Franco deixar seu Você e a Paz não somente homenagear uma figura política decadente como o prefeito de São Paulo, João Dória Jr., uma figurinha que só é querida entre os mais ricos, como deixar que ele lançasse um estranho composto alimentar, que pela sua má reputação foi depois descartado.

Só com essas atitudes Divaldo se "queimou". E nem a velhice serve de desculpa, até porque ele parecia lúcido e ainda fez suas verborrágicas e teatrais oratórias. Ele derrubou a sua antiga (embora discutível) reputação de "sábio", "ativista" e "humanista", e ainda mostrou que nunca foi seguidor de Allan Kardec por faltar, no "médium" baiano, a firmeza própria do pedagogo francês, que nunca abriria um evento seu para divulgar um alimento de origem, valor e procedimento duvidosos.

Outro "médium" também deixou a máscara cair, que foi o goiano João Teixeira de Faria, do qual se vendeu a falsa reputação de "amigo do ex-presidente Lula" só porque realizou uma cirurgia espiritual. O "curandeiro" goiano, tão "amigo" de Lula quanto, por exemplo, José Sarney, é também um latifundiário e possui terrenos que equivalem a 18 Parques do Ibirapuera, área muito grande para um Estado "magrinho" como Goiás e que havia perdido parte do território para o Estado do Tocantins.

João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, apareceu para saudar o presidente Michel Temer quando ele fazia cirurgias para retirada de nódulos. Embora tivesse sido um encontro rápido, notou-se uma cumplicidade muito grande entre os dois, enquanto a tão "sincera amizade" do "médium" com Lula nunca passou de uma simpática cordialidade mútua.

O próprio fato de João de Deus cumprimentar Temer, a exemplo de Divaldo homenagear Dória, remete à baixa sintonia que os chamados "médiuns espíritas" têm em relação a cenários políticos e governamentais. A identificação com políticos decadentes encontrou precedente quando o "médium" Francisco Cândido Xavier havia declarado defesa convicta da ditadura militar, em uma entrevista ao programa Pinga Fogo, da TV Tupi, em julho de 1971, hoje disponível na Internet.

Nessa época, a ditadura militar já não tinha o apoio de parte daqueles que clamaram pelo golpe militar, sete anos antes. Carlos Lacerda já havia tentado um movimento de redemocratização, a Frente Ampla, com seu ex-desafeto Juscelino Kubitschek, cancelada por imposição dos militares. Alceu Amoroso Lima, que denunciou que Parnaso de Além-Túmulo era uma armação de editores da FEB, também se opunha ao regime militar em 1971.

Já Chico Xavier - que muitos, de forma inexplicada, acreditam ser "progressista" - pediu para que os brasileiros "orassem pelos generais" porque eles estavam "construindo um reino de amor" do futuro. A baixa sintonia a esse momento remete ao fato do "médium" (que no mesmo Pinga Fogo disparou ataques a camponeses e operários) apoiar a ditadura militar justamente no momento em que esta se tornava cada vez mais cruel e desumana.

Os "espíritas" também apoiaram iniciativas de grupos direitistas como Movimento Brasil Livre, Revoltados On Line e Acorda Brasil sob a desculpa de ver neles "um despertar político da juventude". Chegou-se até mesmo a atribuir os movimentos do "Fora Dilma" em 2015-2016 como "início do processo de regeneração da humanidade" e aos jovens como "crianças-índigos", mesmo quando até suásticas eram mostradas nessas manifestações dotadas de muito reacionarismo.

A sintonia com quadros políticos decadentes contrasta com atitudes como a de Pedro Cardoso, que não teve medo de criticar o presidente da EBC pela atitude infeliz de compartilhar comentários racistas. A desistência de participar do programa, renunciando à divulgação do próprio livro, foi um enfrentamento a um contexto político que ainda faz iludir muita gente e é apoiado, mesmo de forma não-assumida, pelos "espíritas".

É notório, aliás, que desde o início do governo Temer, ainda na fase interina, multiplicaram-se textos de páginas e autores "espíritas" pedindo aos brasileiros para "amar o sofrimento" e "abrir mão de suas necessidades". Embora não mostrassem preferências políticas, os "espíritas" deixaram vazar, com tais mensagens, apoio às ditas reformas do governo Temer, como trabalhista e previdenciária, e medidas como a terceirização total e a flexibilização dos acordos entre patrões e empregados.

É uma vergonha que o "espiritismo" brasileiro não mostra hoje o "humanismo" que diz ter. Aliás, ele nunca foi humanista de verdade, pois seu igrejismo conservador e medieval nunca foi além de um pálido aparato de "caridade paliativa", mais preocupada em expor os "benfeitores" do que em ajudar os necessitados.

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