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A perigosa blindagem que beneficia os "espíritas"

PINTURA DE JOSÉ MEDRADO ATRIBUÍDA A CÂNDIDO PORTINARI MOSTRA IRREGULARIDADES. O PORTINARI ORIGINAL APARECE NO QUADRO À ESQUERDA, NO ALTO, E, IMEDIATAMENTE ABAIXO, A ASSINATURA FEITA EM 1941.

Bom viver no Brasil, a República das Bananas. Dependendo do prestígio social, você pode fazer das suas que ninguém mexe. A Justiça não move um dedo e, se mover, você pode investir um pouco de vitimismo aqui, triunfalismo acolá e tudo fica na mesma coisa.

As pessoas na verdade não tem concentração para pensar no que elas fizeram na vida, e vão ter para conversar com os mortos? A quase totalidade da "mediunidade" que se pratica no Brasil é uma grande fraude, até porque, de repente, o Brasil possui uma quantidade de "médiuns" grande demais para uma atividade que muitos consideram excepcional e peculiar.

Sabemos que é chocante identificar fraudes de supostos médiuns, vários deles gozados de altíssimo prestígio. As pessoas, apegadas em convicções infantis, preferem aceitar a mentira e a falsificação, desde que elas transmitam "mensagens positivas" e sejam produzidas "em nome do pão dos necessitados". A bondade vira cúmplice da mentira e da farsa, fazer o quê?!

É aberrante e surreal essa situação. A mentira se transforma em verdade porque o trabalho do bem a purificou? Que coisa ridícula e estúpida! Por isso a gente vê, nas pregações "espíritas", gente condenando o que eles chamam de "overdose de raciocínio", "tóxico do intelectualismo" e atribuem "paixões terrenas" ao raciocínio investigativo e às contestações severas, mesmo com provas.

À ESQUERDA, OBRA E ASSINATURA ORIGINAIS DE HUMBERTO DE CAMPOS. À DIREITA, AS DO SUPOSTO ESPÍRITO DIVULGADO POR CHICO XAVIER.

A carteirada religiosa chega a investir em teses absurdas como atribuir a uma "percepção fora das limitações da matéria terrestre" ou a "compreensões que escapam da lógica humana" para permitir que fraudes supostamente mediúnicas sejam consideradas "autênticas". Basta apresentar uma mensagem "positiva", que "a ninguém ofenda", para ser considerada "verdadeira".

Paremos para pensar. O falso vira verdadeiro porque o nível de compreensão na Terra é limitado? Não. Se temos limites de compreensão para muitas coisas, isso não significa que, só por serem mensagens religiosas, os textos, sons e imagens fraudulentos, embora atribuídos à "gente do além-túmulo", sejam considerados "autênticos" por "escaparem da lógica dos homens".

Isso é deplorável. Observamos muitas das obras ditas "mediúnicas" e somos obrigados a identificar fraudes. É por ódio ou rancor a este ou aquele ídolo religioso. Não. Quem dera se pudéssemos realmente admirá-los, mas eles, em vez de apresentar qualidades realmente dignas, usam apenas um simulacro de "dignidade" para mascarar suas ideias mistificadoras e suas desonestidades diversas.

É assustador que muitas pessoas cheguem à idade adulta e à velhice esquecendo da estória do "homem do saco". Aquele homem que diz estórias lindas para uma criança, sob a intenção de sequestrá-la e que parece bondoso, simpático e com uma linguagem bastante animada e cativante.

Esquecemos tudo isso e muitos de nós aceitam as fraudes "mediúnicas" como "autênticas" por serem elas associadas a intenções "filantrópicas" ou transmitirem "mensagens de amor". Esquecemos das irregularidades e das disparidades de estilo, facilmente identificáveis em análises comparativas.

No alto, colocamos dois retratos pintados de São Francisco de Assis. Um é de Cândido Portinari, feito em 1941, que mostra o referido santo em olhar introspectivo, com traços precisos e fortes. Outro é o mesmo santo cuja pintura atribui ao mesmo espírito, pela obra do "médium" José Medrado.

Não há como dizer que isso não é fraude. Os estilos são puramente diferentes. O "Portinari" de José Medrado apresenta um São Francisco fazendo um sorriso matreiro, como se isso dissesse muito sobre a natureza da imagem. A pintura não tem as cores precisas e fortes de Cândido Portinari e a assinatura nada tem a ver com ele, mas com o estilo pessoal de José Medrado, já observado em pinturas atribuídas a outros espíritos de artistas.

Isso é calúnia, é ofensa, difamação? É perseguição ao trabalho do bem? Nada disso. Não podemos fingir que as duas obras são autênticas, que o espírito do pintor esquece seu estilo tomado de tanto amor no coração (?!), que tudo é válido pela "linguagem universal do amor" e outras alegações.

Paciência. Não deixamos nosso cérebro num copo d'água ou num freezer quando saímos de casa e sobretudo quando entramos em um "centro espírita". Somos seres racionais e, se nossos padrões de percepção das coisas são precários, no mundo espiritual eles não se transformam num vale-tudo em que os traços pessoais se tornam um critério desprezível diante da carteirada emocional do "amor" e da "caridade".

O caso de Humberto de Campos foi outro grande exemplo aberrante. Gerou um processo judicial que deu em nada. A carteirada emotiva e religiosa prevaleceu, e Francisco Cândido Xavier, o "popular" Chico Xavier, e o presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, os verdadeiros autores da fraude que usava o nome do escritor maranhense, saíram impunes e o "médium" viu seu arrivismo pessoal atingir uma ascensão em níveis vertiginosos.

Custou aos juízes um pouco de observação? A fraude era fácil de ser identificada. Os livros do "espírito" Humberto, em vez de ter o texto culto, gramaticalmente perfeito, narrativa ágil e descontraída, apresentam um texto pesado, narrativa cansativa e deprimente e sérios vícios de linguagem, não bastasse essa ser forçadamente culta, mas prolixa.

As pessoas aceitaram tudo isso e uma bibliografia "paralela" atribuída a Humberto de Campos passou a ser lançada impunemente, criando a tentação das pessoas juntarem as obras do Humberto deixadas em vida (inclusive lançamentos póstumos, mas escritos quando o autor estava vivo) e as supostas obras espirituais, "autenticadas" em nome da carteirada emotiva do "amor" e da "bondade".

A desculpa usada para tudo isso é que "o amor pode tudo", "o amor tem razões que a razão desconhece" e tudo mais, que permite todo tipo de falácia que transforma uma mentira descarada em "verdade indiscutível". Daí colocar o falso como "verdadeiro" por causa de "mensagens positivas", e o próprio Wantuil, no seu tempo (1944), disse que os livros do suposto Humberto "não ofendiam a memória" do autor maranhense.

Balelas. Um pouco de leitura atenta mostra que as obras são uma fraude, e temos que considerar isso. As maiores paixões terrenas não são as do raciocínio que vai "longe demais", mas da fé extrema que quer bloquear os avanços do raciocínio, quando ele põe em xeque mitos religiosos. É isso que os farsantes pensam, quando usam a "bondade" para blindar a fraude e a mentira. Pensam que mentira de amor não dói. Mas ela dói, dói muito. O problema é que muitos nem sentem essa dor, que fere e sangra secretamente.

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