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"Espiritismo" e a parábola do mau credor


A pessoa sofre adversidades pesadas em sua vida, que se agravam e se acumulam sem que uma única prece pudesse lhe salvar de qualquer enrascada. Quando o aflito, na sua boa-fé, vai para uma casa "espírita" para pedir socorro, já quando expõe seus graves problemas para o atendente do "auxílio fraterno", este pode variar entre uma indiferença e uma indisfarçada alegria.

Em ambos os casos, porém, a disposição de ajudar é nula. O relato é sempre o mesmo: "Está tudo bem com você, fique tranquilo, permaneça na fé em Deus e no clima de prece". Mesmo se a pessoa cumprir tudo isso à risca, nada ocorre de melhoria e, quando investe num tratamento espiritual, as coisas até pioram. Até parece que o sujeito está sendo vítima de algum ritual de urucubaca.

O "espiritismo" brasileiro é uma religião macabra e traiçoeira, e não dissemos isso por algum chilique de intolerância ou de raiva contra um dito "trabalho do bem". Dissemos isso porque vemos que, por optar pelo roustanguismo que lhe emprestou o processo de catolicização que aqui vemos, o "kardecismo" que só tem Kardec no nome e na bajulação, mas o abandonou completamente nas ideias e ensinamentos, foi marcado por ações desonestas dos diversos tipos, o que atraiu fortemente e de maneira irremediável as influências de espíritos malfazejos, que praticamente viraram "donos" da doutrina.

As más energias do "espiritismo" brasileiro só não atingem quem é mais conservador e inofensivo. Mas, de resto, as pessoas penam e sofrem horrores, mesmo quando se arrependem de faltas passadas e querem agir de maneira correta na vida. Mesmo quando lutam na vida, não conseguem senão a ruína, a encrenca, o infortúnio e as perdas pesadas, e o destino só "sossega o facho" depois que algo extremamente pior tivesse colocado o aflito "no fundo do poço".

O "espiritismo" brasileiro é, portanto, a religião do "quanto pior, melhor", e a doutrina brasileira, sabemos, substituiu o ensinamento original kardeciano, que diz "Fora da caridade não há salvação", pelo ditado popular "Pimenta nos olhos dos outros é refresco". A religião dita "kardecista" e adepta da Teologia do Sofrimento, corrente radical do Catolicismo medieval, embora nunca tivesse assumido formalmente tal posição. Mas as ideias evidentes falam muito mais do que as posturas tentam omitir na teoria.

O "espiritismo" brasileiro, por trás de sua fachada dócil e seu discurso falsamente racional, pretensamente afetuoso e posando de despretensioso, humilde e moderno, possui um conteúdo retrógrado, marcado pelo moralismo punitivista pelo qual os oprimidos têm que "pagar pelo que devem" para conquistar as tais "bênçãos futuras", pouco importando o arrependimento prévio e as orações suplicantes pedindo socorro nos momentos mais difíceis da vida.

Ou seja, se é para a pessoa perder dinheiro sem poder conseguir um trabalho de sua competência, se é para a pessoa ter que se unir com alguém sem afinidade e até com divergências violentas, se e para a pessoa sofrer desgraças sem fim, que se acumulam e se agravam a qualquer momento, ela tem que suportar tudo isso e a única coisa que a liderança "espírita" quer é se sentar no sofá e ver o aflito se arruinar na vida, e o socorro divino só chega quando já é tarde demais.

As instituições e lideranças "espíritas", agindo assim - e agem mesmo, por mais que neguem, apelando para o surrado bordão "não é bem assim" - , lembram muito o mau credor da famosa parábola bíblica, que o próprio Allan Kardec citou em O Evangelho Segundo o Espiritismo, a respeito do mau credor.

O MORALISMO "ESPÍRITA" ATUA COMO O CREDOR INCOMPASSIVO.

Em atitude contraitória, o "espiritismo" brasileiro usa o pretexto do "perdão aos inimigos" e a "reconciliação com os adversários" como uma forma de permissividade para os abusos que algozes e arrivistas tanto fazem durante séculos, desde que o Brasil nasceu como um "paraíso de degredados" que se tornou a "lata de lixo da humanidade", acolhendo majoritariamente europeus, asiáticos e estadunidenses "enxotados" por alguma adversidade ou sentença criminal em seus países de origem.

Fala-se tanto nesse perdão ou misericórdia - que mais parece "ganhão" ou "riquezicórdia", tamanha é a complacência para os abusadores de toda espécie, dos trapaceiros aos assassinos - , mas o verdadeiro perdão não acontece. Os verdadeiros aflitos é que devem "perder" ate o que não têm, forçados a desenvolver um masoquismo para que a loteria de bênçãos possa medir a concessão de graças conforme o valor meritocrático do sofrimento sem fim.

Desse modo, como na famosa parábola do credor incompassivo, o "espiritismo" brasileiro é concedido pelo destino a servir em favor dos aflitos. É uma concessão do Destino para espíritos imperfeitos que se julgam ter uma missão especial na religião "espírita" e, por isso, têm suas dívidas inicialmente perdoadas, como no caso do Rei que perdoa as dívidas de um rico endividado.

Mas, à maneira do rico endividado que esfola o pescoço de um subalterno pedindo para que ele pagasse até o que não possui para saldar as dívidas, o "espiritismo" brasileiro prefere que a pessoa leve sua desgraça ao seu ponto extremo, acima das capacidades da pessoa suportar um infortúnio, para obter as "bênçãos eternas", uma ideia abstrata de um benefício que não sabemos como é nem se realmente existe.

Portanto, trata-se de uma perversidade de um "espiritismo" brasileiro que só é considerado benéfico para quem já é conservador e está bem de vida. São os maus credores que vivem passando pano em suas faltas morais, enquanto rogam que os aflitos paguem por aquilo que não têm, e mesmo que essas "dívidas" sejam todas pagas e haja o arrependimento sincero do infortunado, ele tem que agar os juros exorbitantes dessa extorsão e desse estelionato moral que é o "espiritismo" brasileiro.

O "espiritismo" brasileiro quer que os aflitos só ajudem três tipos de pessoas, dois desses tipos ligados aos abusadores, o foco principal dessa "misericórdia de resultados" que prega esse moralismo religioso profundamente medieval, mas que persiste e resiste em pleno Brasil do Seculo XXI. São eles:

1) Os arrivistas - pessoas que usam métodos desonestos de ascensão social;

2) Os algozes - pessoas que levam vantagem prejudicando os outros, não raro cometendo violência de todo tipo;

3) Os miseráveis extremos - neste caso, os pobres a serem atendidos não para saírem da pobreza, mas para evitar com que se revoltem com a situação vivida, com os desejos parcialmente atendidos.

Na parábola do mau credor, vemos que o Rei, ao saber que seu rico súdito se tornou inflexível com os apels do subordinado deste em ter suas dívidas perdoadas, cancelou o perdão às dívidas, por se tratar de uma grande injustiça cometida por aquele que primeiro teve seu perdão concedido.

Pois agora o "espiritismo" brasileiro, ao preferir atuar como se fosse uma "fábrica de sofredores", com tratamentos espirituais que mais parecem celeiros de mau agouro, concessões de urucubacas nas vidas das pessoas, se isola e não consegue resolver sua crise aguda, apesar dos esforços de tentar se reerguer como movimento religioso a aproveitar as cinzas do evangelismo neopentecostal.

O roustanguismo redivivo na figura traiçoeira de Chico Xavier, ele mesmo tendo usado os mortos como degraus para sua escadaria para o céu, revela os abusos que o "espiritismo" brasileiro fez para ter a verdade em suas mãos e evitar qualquer tipo de investigação sobre a podridão que está por trás dessa doutrina neomedieval metida a moderna. Pois a blindagem tende a se esgotar, pelo desgaste dos próprios que blindam o "espiritismo" brasileiro e seu "médium" mais famoso.

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