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Pela reengenharia social e por superstição, omite-se a tragédia dos feminicidas


SURGEM RUMORES DE QUE DOCA STREET HAVIA FALECIDO, EMBORA A IMPRENSA SE RECUSE A FALAR SOBRE O ASSUNTO.

A sociedade brasileira é surreal, até quando se lida com a morte. Os obituários que se deixam publicar na mídia e no Wikipedia precisam ser seletivos, "fofos", com personalidades que, geralmente, renderiam algum prêmio Nobel, ou então outras personalidades que nem merecem tanto isso mas são razoavelmente inofensivas.

A imprensa que noticia mortes de gandulas de futebol de várzea por mal súbito e de recos de serviço militar por infartos em treinamentos não é capaz de dizer que assassinos, sobretudo feminicidas, também têm sua tragédia e, não raro, morrem e bem mais cedo que imaginamos.

Inventam-se duas masculinidades tóxicas para os machistas. A dos que matam e a dos que morrem. A masculinidade tóxica, pelos olhos da grande imprensa, só mata os que não matam as mulheres, geralmente atingindo apenas machistas bonachões, tiozões do churrasco, que estão "autorizados" a morrer antes dos 60 anos, pelos naturais descuidos à saúde.

Já os machistas que matam mulheres, por mais que eles se descuidem da saúde, o que, pelas leis da Natureza, lhes cobraria um preço caríssimo de abreviação da vida, aos olhos da nossa sociedade eles não estão "autorizados" a morrer.

Precisam "estar vivos" para o bem da necropolítica. Se eles morrem, eles deixam a consciência da morte para futuros feminicidas, o que significa que eles serão desencorajados a matar suas namoradas e esposas - "necessário" para o controle populacional, ceifando as vidas de potenciais mães - , porque seria inútil matá-las se eles serão lembrados de que também morrerão um dia.

A reengenharia social sempre consentiu com o feminicídio, apesar de repudiá-lo, porque o Brasil, com fama de ter, em sua população, "mais mulheres do que homens" (dado muito duvidoso em várias regiões, até porque boa parte dos homens, pela transitoriedade de seus domicílios, "fogem" dos dados estatísticos), "precisa" reduzir a população feminina.

Por isso não se divulgam tragédias de feminicidas. O Globo veio com uma gafe dizendo que Doca Street estava "muito ativo nas redes sociais" quando, pela lógica dos fatos - seu tabagismo preocupante, aliás, havia sido noticiado quatro décadas antes pela revista Manchete - , ele estaria muito fraco e entristecido para virar o "vovô influencer" aos 81 anos. Esqueceu o redator de O Globo que ricaços contam com ghost writers para escrever em nome deles.

Daqui a pouco vão dizer que o jornalista Pimenta Neves, que, segundo a mídia, "espera há nove anos" por um câncer na próstata (desde 2011 se fala que ele "tem grandes chances" de contrair a doença), ao completar 20 anos do assassinato de sua namorada e ex-colega Sandra Gomide, no próximo 20 de agosto, criou conta no Tik Tok para fazer dancinhas de "vovô saradão".

É muito surreal. Até o sucessor de Pimenta Neves, Sandro Vaia, já morreu. A imprensa noticia mortes prematuras de muitos jornalistas, recentemente tivemos o caso do Rodrigo Rodrigues, do SporTV. Jornalistas bem menos conhecidos que Pimenta Neves têm seus falecimentos noticiados pelo Jornal Nacional e Jornal da Band e nos obituários da revista Veja.

Por outro lado, o músico Frank Zappa e o geógrafo Milton Santos não tiveram o "privilégio" de esperar muito tempo para ter câncer na próstata. Eles tiveram imediatamente e, infelizmente, morreram. Enquanto isso, Pimenta Neves aparece "vivo e saudável" até nos dados do Wikipedia, só sofrendo "eventuais" problemas de hipertensão.

Não é ofensivo falar que Doca Street e Pimenta Neves um dia serão apenas duas pequenas urnas de cinzas num cemitério. Em tese, pelos seus anos de nascimento (1934 e 1937, respectivamente), eles atingiram uma idade de óbito há um bom tempo. Pior: por pouco, eles não morreram antes, pois o organismo de Doca Street poderia, pelo câncer, tê-lo matado aos 55 anos e a overdose de comprimidos poderia ter ceifado a vida de Pimenta Neves poucos dias após ter matado a namorada. Pimenta não seria, pela lógica da Natureza, mais forte que Heath Ledger.

Além da necropolítica, os feminicidas "não podem morrer" por superstião, moralismo religioso e até mesmo por vingança. Se a necropolítica omite as tragédias dos feminicidas para não assustar futuros praticantes desse crime, há a superstição que faz a sociedade ter medo dessas mortes, achando que os feminicidas, mortos, irão assombrar.

Existem muitas lendas de casas mal-assombradas, abandonadas há tempos, em que supostamente existem fantasmas de antigos feminicidas, que mataram suas esposas por ciúme doentio e depois se suicidaram. É essa superstição que faz as pessoas rezarem para que o Universa do UOL não fique noticiando mortes de feminicidas, ainda mais em tenra idade, mesmo pelos efeitos da masculinidade tóxica.

Há o moralismo religioso, que acredita que os feminicidas teriam que "viver mais do que o ser humano comum" para "aprenderem". É uma tese baseada na crença de uma encarnação única, e que risivelmente fazem com que antigos feminicidas como Marcelo Bauer (que matou a namorada a facadas em 1987 e fugiu do Brasil) e John Patrick Maura (que em 1982 matou a namorada, a atriz de Poltergeist Dominique Dunne) brinquem de "reencarnação" dentro da encarnação presente.

Esse moralismo, que mais parecem arremedos confusos de crimes narrados pela dramaturgia de Nelson Rodrigues com aspectos de "evolução moral" dos romances de Victor Hugo, acaba se tornando mais complacente com o criminoso levando um aparente perdão aos níveis da "síndrome de Estocolmo", passando a admitir até mesmo uma culpabilidade da vítima.

Há também o sentimento vingativo de que o feminicida terá que "viver mais para pagar e sofrer", ainda que tenha que viver cem anos de cadeira de rodas e sem poder esboçar uma fala ou um raciocínio, devido às limitações físicas. É esse sentimento que ignora que, talvez, fosse muito melhor para um feminicida morrer cedo e, em outra encarnação, recomeçar tudo do zero, sem as marcas do orgulho da encarnação em que se cometeu o crime.

Não é ofensivo dizer que um dia Doca Street e Pimenta Neves estarão mortos, que o empreiteiro Roberto Lobato pensará em "novas construções" no mundo espiritual e que Lindomar Castilho irá fazer dueto com Paulo Sérgio e Evaldo Braga. Eles também morrem, não é porque eles "apresentam" a morte para outras pessoas, no caso suas mulheres, que eles serão livres de encarar o "último suspiro". E todos eles alcançaram um tempo de nascimento considerado elevado demais para sugerir que eles estariam "ainda muito novos para morrer".

No caso de Doca, fica até estranho saber que, enquanto membros da família Street apresentam semblantes de luto nas redes sociais e, de repente, foi autorizada a produção de Quem Ama Não Mata, sobre o crime que matou Ângela Diniz, que havia sido proibida pelos advogados do feminicida. Afinal, numa sociedade cuja Justiça protege os mais ricos, era para a minissérie ter sido engavetada para sempre, e sua liberação dá indícios de que Doca não estaria mais vivo para zelar por sua imagem.

Também morre quem atira. O medo da sociedade em saber que as pessoas que tiram a vida dos outros morrem um dia, principalmente os feminicidas que, muitas vezes, usam como desculpas valores moralistas relacionados à Família e ao Patriarcado, é um problema psicológico que pode, potencialmente, levar muitas dessas pessoas medrosas a sofrer demência.

A masculinidade tóxica de pessoas como Doca Street foi um fato noticiado pela imprensa, e que preocupava amigos e familiares. E os feminicidas não são super-homens a sobreviver a doses industriais de nicotina, eventuais porções de cocaína e álcool e overdoses de comprimidos. Eles também morrem e sua masculinidade tóxica é pior do que a que mata os machistas mais inofensivos, porque as saúdes dos feminicidas são agravadas pelas doses de adrenalina causadas pelo ódio doentio, doses suficientes para causar infartos fulminantes até em homens aparentemente saudáveis.

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