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Pandemia de medo contagia maioria dos brasileiros



Pior do que o coronavírus, o medo está contagiando a maioria dos brasileiros, que ignora, de forma paranoica, que aquele padrão de país que existia desde 1974 está no fim. Medos completamente surreais tomam conta das pessoas, por diversos e preocupantes motivos.

Temos medo da esquerda voltar ao poder. Temos medo de Jair Bolsonaro ser tirado do cargo presidencial. Temos medo de ver feminicidas morrerem, mesmo antes dos 60 anos. Mas temos medo até de feminicidas morrerem de velhice, na casa dos 80 anos. Temos medo até de ônibus perderem a padronização visual em cidades como Curitiba e São Paulo. Temos medo até de ver gente no Rio de Janeiro que não curte futebol. Temos medo do ídolo musical popularesco cair no ostracismo, temos medo de ver as mulheres siliconadas deixarem de fazer "fotos sensuais".

Temos medo de tudo. Tudo mesmo. Coisinhas à toa. Somos metidos a perder medo quando se trata de entes queridos ou pessoas de grande contribuição sócio-cultural para nosso país. Se um Moraes Moreira morre de infarto, somos metidos a suportar de maneira resignada, achando que somos nobres desapegados. Mas se de repente o morto é Lindomar Castilho, cantor brega e feminicida, as pessoas correm para o armário do banheiro engolir garrafas inteiras de Rivotril.

Do mesmo modo, se José Wilker morreu por conta do tabagismo, ficamos tranquilos e conformados com tamanho realismo. Mas se o morto é Doca Street, pelo mesmíssimo motivo - e com o agravante de consumo de cocaína no passado - , o risco de muita gente, que confunde "perdão aos inimigos" com Síndrome de Estocolmo, contrair demência mental é muito, muito grande.

Da mesma forma, se um busólogo que mora nas ruas de São Paulo sair para a rua e ver a Gato Preto e a Santa Brígida com identidades visuais diferentes, vai correndo para a farmácia mais próxima para encher a sacola de anti-depressivos e se entupir com tudo numa só tragada. Já teve "brutólogo" tomando Rivotril quando viu a pintura padronizada nos ônibus do Rio de Janeiro ser cancelada.

E se os roqueirinhos de seriado tipo Malhação verem que suas radiozinhas favoritas, como a paulista 89 FM e a carioca Rádio Cidade, deixarem de tocar rock, vão surtar de tal forma que os funcionários de sanatórios deveriam ficar alertas para se prepararem diante de alguma loucura. O mesmo cuidado deve se dar para cariocas que tomarem consciência de que nem todo mundo gosta de futebol, pois o risco de surtos psicológicos é altíssimo.

E se o "funk" nunca mais for considerado "parte integrante da MPB"? Os antropólogos e a sociedade de burgueses descolados e a esquerda fashion vão correndo, aos choros soluçantes, para o psiquiatra. E se a funkeira siliconada avisar que se casou com algum homem, os punheteiros de plantão cairão em depressão profunda.

Se a Petrobras desaparecer, substituída por um cartel de petrolíferas estrangeiras, tudo bem. Não pode é a Havan decretar falência. Se a cultura brasileira do passado desaparecer de nossa memória, muitos nem se incomodam, mas quando se trata da decadência do entretenimento brega e da volta à privacidade de muitas sub-celebridades, o clima de luto será inevitável.

É esse o Brasil "normal" que temos. Não é nossa culpa descrever situações como essas, porque a coisa é surreal, mesmo. As pessoas têm mesmo esses surtos, se são aquelas consideradas "normais". Se não fosse assim, não teríamos páginas farsantes como Terça Livre, de Allan dos Santos, nosso maior pensador não seria Olavo de Carvalho e nossa vanguarda artística não seria o "funk".

MEDO MAIOR: O DE QUESTIONAR CHICO XAVIER

Esse medo contagia a maioria dos brasileiros, que ainda por cima têm a mania de bancar os pretensos intelectuais quando suas convicções são postas em xeque. Chegam a criar um discurso no qual sentem desconfiança da realidade, preferindo brigar com os fatos, só porque eles não lhes são do seu agrado.

No caso de Francisco Cândido Xavier, o medo de questionar o mito dele e partir para uma investigação mais apurada e contestatória é em níveis traumatizantes. Chico Xavier é o único que tem que permanecer "virgem" e "imune" à realidade dos fatos, envolto numa "bolha" da qual somente a fantasia e o pensamento desejoso zelam pela sua memória.

Se os fatos comprovam que ele foi um reacionário radical - tanto que ele apoiou a ditadura militar e o AI-5 e foi condecorado pela Escola Superior de Guerra (que nem em sonhos iria homenagear quem não colaborasse com a ditadura militar, sobretudo em período de repressão radical) - , as pessoas vão logo usando o pensamento desejoso para relativizar e desmentir o óbvio, sempre com aquele tom de voz arrogante que faz os "isentões espíritas" apelarem para o bordão "não é bem assim".

Há dados muito sombrios em Chico Xavier e que foram revelados, em parte, por gente simpática a ele, revelações trazidas de forma acidental, como naqueles "fogos amigos". Nem sempre são os "rancorosos opositores", tidos como "invejosos do trabalho do bem", que denunciam atitudes negativas de Chico Xavier. Sua amiga Suely Caldas Schubert deixou vazar cartas em que o "bondoso médium" demonstrava fazer fraudes literárias junto a dirigentes da Federação "Espírita" Brasileira.

Com tantas coisas assim, ninguém tem coragem de investigar. E quem tem mais competência para isso, como os jornalistas investigativos, os acadêmicos e os juristas, tiram o corpo fora quando veem o nome "Chico Xavier". Como que rendidos por um "canto de sereia" - cuja novidade semiótica é que o pior desse canto não vir por meio de moças bonitas com rabo de peixe, mas por um velho feioso, franzino e de ternos cafonas - , chegam a resistir e até imaginamos possíveis desculpas para isso:

JORNALISTA INVESTIGATIVO: "Investigar Chico Xavier? Não, estou muito ocupado com a reportagem investigativa sobre meu filho de um ano, que chorou de repente e urinou na cama. Tenho que averiguar os esquemas que autorizaram esse xixi na cama e já estou entrevistando minha mulher, meus vizinhos e vou entrevistar amanhã o farmacêutico e o enfermeiro da maternidade onde meu filho nasceu, porque os choros do meu bebê andam tirando o meu sono todos os dias".

ACADÊMICO - "Chico Xavier? Não. Não investigo. Estou muito ocupado estudando a guerra criptografada do bolo de coco com o bolo de chocolate, e estou intrigado porque o bolo de coco tem cobertura branca e colocaram recheio de doce de leite, o que me intriga profundamente e me exige trabalhar sobre esses casos bastante incômodos. Imagine, um bolo de coco branco!".

JURISTA - "Analisar o caso Chico Xavier? Não me disponho a isso. Minha ocupação, que me toma muito tempo, é verificar a forma de ruptura legal de por que nossa cidade, em pleno calor de verão, ter tido chuva com trovoada e a temperatura ficar fria, de repente. Isso rompe com a Lei da Natureza, e estou aqui para ver os delitos jurídicos que desobedecem essa lei".

Chegamos ao absurdo de permitirmos que se usem os nomes dos mortos para mensagens fake, grosseiramente igrejistas, e que em dado momento sempre falha em algum aspecto pessoal associado à sua pessoa. Chico Xavier abriu precedente a isso, com obras cheias de falhas estilísticas, que saltam aos olhos.

Mesmo assim, as pessoas ficam com medo. Também, falta autoconhecimento para os brasileiros. E falta autoconhecimento para os "espíritas", que não sabem a dimensão com que traem os postulados kardecianos originais, e juram fidelidade e respeito absolutos a algo de que são infiéis e desrespeitosos.

Se as pessoas não conseguem conhecer a si mesmas, ainda mais criando multidões de fakes no WhatsApp, Twitter e Facebook, quanto mais saber se o Humberto de Campos e o Olavo Bilac que "aparecem" nas "psicografias" são autênticos ou não. A burrice e a desinformação deixa as pessoas prisioneiras no seu paraíso do desconhecido e do ignorado, iludidos com seu pragmatismo cotidiano de gado humano.

Há a banalidade do mal e da corrupção que não mais chocam as pessoas. Elas ficam felizes com a mediocridade em vários âmbitos da vida. O cotidiano só é ruim conforme o julgamento solipsista de quem vive ou não vive um malefício. Os ídolos não podem ser outros como arrivistas do tipo Jair Bolsonaro - que as esquerdas encaram como "malvado favorito" - e Chico Xavier, um reacionário que, estranhamente, é admirado até por comunistas e ateus. Quanta ingenuidade.

E aí tem-se o medo de ver ruir essa bagunça organizada que, para as pessoas, lhes traz a forçada estabilidade do falso equilíbrio entre as perdas e ganhos, entre a sordidez e o assistencialismo, dentro dos padrões daquela utopia de "ser gente como a gente" que não vai a lugar algum.

O medo de ver essa "realidade brasileira" do pós-Geisel, que resistiu até mesmo por 21 anos de redemocratização do país, faz com que a maioria dos brasileiros, explícita ou implicitamente conservadora, se for o caso (inclusive setores das esquerdas são muito mais conservadores do que se pensa), entre em surtos psicóticos diversos.

Ver que as pessoas, em outros tempos, eram mais equilibradas, elegantes e quase simpáticas na defesa do seu conservadorismo, ao ver que os tempos mudam, agora passaram a surtar, reagindo de maneira desesperada quando algum dos paradigmas que acreditam está decaindo. Daí que o medo virou a doença dos brasileiros, um medo administrado de maneira errada, pois ninguém tem medo de pegar o coronavírus numa aglomeração, mas tem medo de que os valores e pessoas em que acreditam percam totalmente o sentido. Esse é o pior medo, um medo como doença.

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