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A esculhambação da imagem da mulher solteira


Mais uma vez, a subcelebridade Solange Gomes, que usa o corpo como mercadoria, apelou para ficar nua em dia de frio. "Desafiando o frio no Rio de Janeiro", se atreveu a escrever, ao mostrar mais uma foto "sensual" nas mídias sociais, ontem de noite.

Semanas atrás, a revista Veja publicou uma reportagem intitulada "Bela, Recatada e do Lar", relacionada à Marcela Temer, esposa do hoje vice-presidente da República, Michel Temer, preparando para ser titular do Governo Federal assim que se concluírem os processos, estranhos e tendenciosos, para tirar a presidenta Dilma Rousseff do poder.

E o que Marcela Temer e Solange Gomes têm a ver uma com outra. Aparentemente, nada. Mas, só aparentemente. Elas são dois lados de uma mesma moeda, de um machismo maluco existente no Brasil, que não aceita ver feminicidas morrerem e acha que mulher-objeto pode ser feminista.

Marcela, evidentemente, personifica um machismo mais "família", a da "escrava do lar". Já Solange, por sua vez, personifica o machismo "recreativo", feito "fora de casa". E isso mostra o quanto o sistema machista ainda é muito cruel com as mulheres, principalmente quando a imagem da mulher solteira é avacalhada gratuita e impunemente.

O machismo impõe "filtros" ideológicos para evitar a emancipação plena da mulher. Entre os casos extremos de Marcela Temer, submissa ao seu marido (muito mais velho, por sinal), e de Solange Gomes, submissa às taras sexuais de internautas machistas, a mulher brasileira quase sempre encontra uma barreira machista na busca da independência social.

A mulher que tem o que dizer, mostra bons referenciais culturais, se veste discretamente e por aí vai é "recomendada" pelo sistema de valores existente no Brasil a ter um marido, geralmente alguém poderoso, seja empresário, político ou profissional liberal, alguém que, profisionalmente, têm algum status de liderança ou mesmo de comando.

Já a mulher que não tem o que dizer e faz o papel de mercadoria sexual, mostrando o corpo fora de qualquer contexto e tratando o erotismo como um fim em si mesmo, ela é dispensada de ter um marido ou namorado. Pode até ter algum "parceiro" nos bastidores, mas a ideia é que, neste caso, ela esconda o máximo possível sua vida amorosa.

O objetivo é avacalhar com a imagem da mulher solteira. Ver que a mulher solteira só pode estar associada a uma vagabunda que "sensualiza demais" e só curte noitadas e festas. Isso é o que a mídia promove das mulheres solteiras, uma imagem pejorativa, ofensiva, mas como ela se apoia em paradigmas ligadas ao "divertimento popular", a opinião pública, mesmo de esquerda, deixa passar.

Essa campanha abertamente pejorativa tenta intimidar as mulheres que querem buscar uma independência plena. A moça sai da faculdade querendo ser alguém na vida, querendo ampliar seus conhecimentos e sua cultura, ela terá que se apoiar na imagem "protetora" e "parceira" de um marido, se não quiser ser considerada "vagabunda".

É isso que pessoas como Solange Gomes, Mulher Melão (Renata Frisson), Valesca Popozuda, Mulher Melancia (Andressa Soares) e outras fazem. Elas ridicularizam a imagem da mulher solteira, associada pejorativamente a uma imagem hipersexualizada, como se a única coisa que a mulher solteira pode fazer é "mostrar seu corpo".

Intelectuais - inclusive femininas - tentaram afirmar esse sensualismo obsessivo de forma positiva, falando em "liberdade do corpo" ou "direito à sensualidade", criando uma verborragia pseudo-antropológica para dizer que essas mulheres-objeto "esfregam seus glúteos na cara dos homens" com a "auto-afirmação" de sua sensualidade.

Conversa para boi dormir. O discurso "progressista" desses intelectuais festivos não valeu, até porque a Mulher Melão expressou defender posições políticas reacionárias, não muito diferentes da Ju Isen, a "musa do impeachment".

Mesmo a postura politicamente correta de Valesca Popozuda não convence, pois se, fora dos palcos, ela tenta passar uma imagem de "feminista exemplar", nos palcos ela, que chegou a exibir os glúteos na cara da plateia, mostra uma imagem desesperadamente hipersexualizada.

Isso não é feminismo. É machismo e do grosso. Um machismo recreativo, no qual as mulheres aceitam o papel de objetos sexuais, levando a sensualidade como um fim em si mesmo e promovendo uma imagem depreciativa da mulher solteira, associada a orgias e ao erotismo obsessivo.

O objetivo é evitar que a mulher solteira tenha uma imagem similar à do Primeiro Mundo, da mulher que tem a dizer, aprecia cultura de qualidade e se veste de maneira sóbria, só mostrando sua sensualidade quando realmente necessário.

A mulher com esse perfil, no Brasil, representa um risco para o patriarcalismo machista em que vivemos. É como se a inteligência feminina fosse vista como um grande perigo, o que faz com que o "sistema" sempre arrume um jeito para as mulheres que têm a dizer tenham sua independência "filtrada" pela figura de um marido empresário, político, médico, economista, diretor de TV ou advogado.

Diante disso, as mulheres com personalidade e inteligência são induzidas a se vincularem à figura "moderadora" de um marido, uma figura que "influi" até quando as esposas aparecem quase sempre sozinhas e revelem nas entrevistas "profundas divergências" com seus maridos.

O marido serve como um "freio" para a "emancipação à francesa" (a França é conhecida por haver mulheres intelectualizadas solteironas) das mulheres, fazendo com que a inteligência delas seja expressa até livremente, mas sempre com uma associação simbólica ao marido empresário ou de algum cargo de liderança ou chefia, que represente um grande status sócio-econômico.

Já a mulher que faz o papel de objeto sexual não precisa de marido ou namorado. Ela segue o machismo por conta própria, não precisa de um vínculo conjugal com um homem porque elas já seguem o que os homens esperam delas, dentro da visão que o machismo impõe à mulher brasileira.

Com isso, as solteiras são ofendidas e depreciadas quando há exemplos como Solange Gomes, Valesca Popozuda e as mulheres-frutas. A sociedade hipersexualizada de um país machista serve para impedir a emancipação plena da mulher, impondo a ela duas opções: se ela quer ser solteira, terá que virar coisa, ou ela só será gente se arrumar um marido poderoso.

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