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Articulador do golpe político, Rio de Janeiro se perde em tantos (e graves) problemas


O Rio de Janeiro tem problemas cuja frequência e gravidade são preocupantes demais para serem considerados "normais para uma cidade moderna". Até porque o Estado do Rio de Janeiro e sua capital há muito deixaram de simbolizar alguma modernidade, vivendo agora um surto de provincianismo de assustar até matuto do Norte, e deixou de ser referência de progresso para o Brasil.

Enumeramos muitos e muitos problemas envolvendo não só a cidade do Rio de Janeiro, que vão além da violência ou da crise financeira, e incluem até mesmo a sua responsabilidade pelo golpe político já que, num surto de catarse moralista-administrativa, os cariocas puseram na Câmara dos Deputados reacionários como Eduardo Cunha (hoje cassado e preso) e Jair Bolsonaro (que segue impune depois de dar declarações claramente ofensivas a negros e mulheres).

Chega a soar estranho que o Rio de Janeiro não esteja incluído entre as cidades mais perigosas do país - na prática, é a capital brasileira mais perigosa para se viver - , num tendencioso levantamento estatístico que demonstrou claro preconceito contra os nordestinos, colocando em altas posições cidades consideradas tranquilas como Aracaju.

Este levantamento surreal, que colocou o Rio de Janeiro como a 23ª capital mais perigosa do país (algo equivalente como dizer, numa inversão de ranking, que a cidade é a 5ª capital mais tranquila do Brasil), mesmo com um bairro inteiro se "fortificando" contra a violência (o de Vila Kosmos, na região da Penha), é compreensível.

Explica-se: os dados do Rio foram colhidos entre 2014 e 2016, época de eventos turísticos de grande envergadura (Copa de 2014 e Olimpíadas Rio 2016) e auge do domínio político do grupo de Sérgio Cabral Filho, hoje preso por corrupção, e que também simbolizou o poder dos hoje denunciados Eduardo Paes e Luiz Fernando Pezão. Os dados "pacíficos" da ex-Cidade Maravilhosa foram uma maquiagem para não assustar os turistas nem os investidores.

Vamos enumerar os defeitos que contribuem, de uma maneira ou de outra, para a decadência do Estado do Rio de Janeiro e sua capital, e que contribuíram para a perda do status de "cidade-modelo" da cidade do Rio, que, mesmo com suas imperfeições, "ditava" o que poderia valer no país em termos de cultura, mercado, sociedade, mobilidade urbana etc.

1) VIOLÊNCIA - O crime organizado deixou-se crescer, pelo descaso político e outras falhas, desde os tempos da ditadura, quando perigosos assaltantes de banco foram alojados junto com presos políticos e, de conversa em conversa, os bandidos criaram organizações criminosas. O Rio de Janeiro vive o domínio do narcotráfico, da milícia e da contravenção que, juntos, apresentam práticas de violência que, em muitos momentos, lembram a pistolagem e o domínio coronelista dos latifúndios da região Norte.

2) ULTRACONSERVADORISMO - Os cariocas se revelaram, a partir dos anos 1990, algo que apenas estava latente neles depois do golpe de 1964: um certo ultraconservadorismo reacionário, que faz com que muitos indivíduos tenham um "pensamento único" para qualquer coisa, desprezando as diferenças do outro e criando uma perspectiva extremamente limitada, voltada à mesmice consumista das boates, praias e estádios de futebol. O Rio de Janeiro é famoso também por ser um reduto da direita ideológica, que prefere manter as desigualdades sociais entre pobres e ricos.

3) INTOLERÂNCIA - O Rio de Janeiro é um dos maiores redutos de bullying e cyberbullying no Brasil, por causa tanto da intolerância de muitos indivíduos à discordância alheia quanto à defesa do "estabelecido" por conta do status social de quem impõe certas medidas e valores retrógrados ou restritivos. A fúria em humilhar o outro, que produz ataques em massa nas redes sociais e blogues de conteúdo calunioso e difamatório, é tanta que os valentões são imprudentes. Suas páginas ofensivas são denunciadas para a Polícia Federal e suas visitas à cidade de residência de sua vítima são tão frequentes que chama a atenção de milicianos. Os valentões reagem com sua risada digital "KKKKK", até que sejam condenados, tenham seus computadores e celulares confiscados ou serem mortos por algum pistoleiro de ocasião.

4) MESMICE CULTURAL - O antigo vanguardismo e diversidade cultural dos cariocas está se dissolvendo, em razão da mentalidade consumista que predomina nos cariocas e nos fluminenses por associação. Enquanto a Bossa Nova é condenada ao esquecimento e a apreciação de MPB se restringe a eventos claramente saudosistas e o rock se limita a um gênero de one-hit wonders (artistas de um sucesso só), a mais recente gafe do momento (imagine um Deep Purple com longa trajetória, reduzido a um único sucesso, "Smoke on the Water"!), os cariocas estão mais receptivos ao canhestro "funk" e ao embuste chamado "sertanejo universitário". Chama a atenção também que, seja no pop dançante juvenil ou no pop adulto, os cariocas ficam ouvindo sempre um mesmo punhado de músicas. Fora do âmbito musical, a mesmice cultural revela apego à atrações da TV aberta, um cenário teatral reduzido a comédias americanizadas ou franquias de personagens infantis estrangeiros e a aberrações literárias como "livros para colorir" e diários de youtubers.

5) LAZER LIMITADO - Há uma piada que diz que é preciso apresentar o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e outros pontos turísticos para os cariocas. Os únicos pontos turísticos que os cariocas conhecem são as praias de Copacabana e Ipanema e o Maracanã. O lazer limitado ao consumo de celulares (Facebook e WhatsApp), à televisão, o apego à noitada e o fanatismo esportivo revelam que o carioca, para se divertir, está se tornando bastante repetitivo.

6) FANATISMO PELO FUTEBOL - O grande problema do Rio de Janeiro é que o fanatismo pelo futebol, que envolve quatro times (Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco), torna-se moeda corrente nas relações sociais. Muitos cariocas, quando querem conhecer alguém, perguntam seu time antes de perguntar seu nome. Além disso, há denúncias de que não gostar de futebol é fator determinante para o assédio moral, pois uma simples postura desse tipo é motivo para demissões no trabalho, e, com a reforma trabalhista, que liberou os patrões da fazerem o que querem, isso se torna ainda mais grave. O fanatismo pelo futebol só é considerado "natural" pelos cariocas, mas para os demais brasileiros isso é sinônimo de chatice e falta de assunto.

7) DESUMANIDADE - Os cariocas, tomados de tanto consumismo, precisam se reencontrar. A vida carioca tornou-se desprovida de humanidade. As pessoas estão menos preocupadas em arrumar amigos do que parceiros de alguma diversão (mas sempre aquela: noitadas, vôlei na praia, ver futebol no "Maraca" etc). Não há lugares para paquera se não os redutos caros e perigosos das boates. E as pessoas ainda carecem de alguma afeição, a ponto de extrovertidos esperarem que introvertidos se tornem extrovertidos e pessoas deprimidas virem piadistas para se "entrosar" com os cariocas. As mulheres são muito insensíveis para paquera e se esquecem que os homens também adoram serem amados.

8) APEGO AO STATUS QUO - Alguns retrocessos cariocas recentes, como rádios de rock feitas por quem NÃO é do ramo (Rádio Cidade), o falso folclore do "funk" e a pintura padronizada dos ônibus cariocas (uma medida que confunde passageiros e favorece a corrupção político-empresarial; que o diga a Operação Lava Jato que prendeu empresários cariocas de ônibus), chegaram ou chegam a prevalecer porque quem decidiu por tudo isso era gente ligada a algum status quo: tecnocratas do transporte trabalhando na Prefeitura do Rio, empresários do ramo de shows que se associam com rádios, acadêmicos que julgam ter uma visão "ideal" de "cultura popular" etc. Mas foi essa visão divinizada do "alto da pirâmide" que faz os cariocas endeusarem a Rede Globo e elegerem figuras "moralistas" como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro. Os cariocas superestimam as pessoas pelo privilégio social que estas possuem.

9) CONTENTAMENTO COM POUCO - Existe uma piada em que o carioca, num restaurante, assim que chega um garçom, faz um único pedido: "Eu quero arroz, feijão, carne e alguma salada. O que todo mundo come. O que matar a fome, está bom demais". A ideia do carioca gostar do "básico" (que, em muitos casos, é abaixo do básico) faz com que limitações diversas como a falta de certos produtos nos mercados e a ausência de revistas e fotos raras nos sebos ou na Internet, além da repetição dos mesmos sucessos musicais em rádio FM - que envolve até os one-hit wonders forjados no segmento rock - revela o contentamento dos cariocas com pouco, o que mostra sua visão de mundo superficial e pragmática demais.

10) FALTA DE LOGÍSTICA - Os supermercados cariocas são ilustrativos. Há uma lentidão no reabastecimento de estoques, e a falta de percepção de que não se pode oferecer apenas "produtos básicos". Produtos mais baratos e diferenciados somem nos estoques e levam até um mês para serem repostos. Não há diversidade de produtos, e os mercados se concentram apenas em duas ou três marcas, complicando a concorrência e dificultando o barateamento dos preços. Além disso, o gerente parece se comportar como um boneco de corda que só age se houver pressão da freguesia, carecendo de visão estratégica para pressentir as necessidades da demanda.

11) PERDA DE SENTIDOS E SENTIMENTOS - O carioca deixou-se de emocionar, preferindo a catarse que favorece mais os instintos do que as emoções. Até a "emotividade religiosa", como vemos, por exemplo, no "espiritismo", são mais uma "masturbação com os olhos" nos quais pessoas se divertem às custas do sofrimento alheio, através do entretenimento das "estórias de dor e superação". Mas também deixou de sentir até mesmo o fedor do lixo em sua volta. Caminhões de lixo circulam fedorentos e mal-conservados pelas cidades do Grande Rio e as pessoas nem sentem mais o odor incômodo e asqueroso. Pessoas ficam na praia rindo e contando piadas com fezes de animais ao seu lado, sem que houvesse algum senso de repugnância. Isso gera até um trocadilho do Rio de Janeiro com a Síndrome de Riley Day (que faz a pessoa ser insensível à dor e outros sentidos), criando o apelido de "Riley Day Janeiro".

12) NITERÓI CONFORMADA EM SER QUINTAL DO RJ - Niterói era capital do Estado do Rio de Janeiro quando a cidade vizinha era capital do Brasil e, depois, da Guanabara. Quando veio a fusão, o antigo status de Niterói, que fazia o sonho de todo interiorano fluminense, ruiu aos poucos, mas o sinal mais evidente se deu nos anos 1990, quando a antiga Cidade Sorriso, fundada pelo valente Arariboia, passou a se comportar como uma cidade do interior, e, o que é pior, como uma cidade do interior que nem as cidades do interior querem mais ser. Uma mentalidade provinciana, matuta, indiferente e resignada a tudo, uma indigência cultural, coisa que não é diferente do que ocorre no município vizinho, mas em Niterói isso se torna ainda mais intenso. É preocupante essa sensação dos niteroienses em estarem felizes em serem província.

13) EXCESSO DE FUMANTES - É terrível como no Grande Rio as pessoas fumam cigarro, apesar de tantas campanhas de esclarecimento. E, mais grave, nem as mortes de pessoas que de alguma forma tiveram uma trajetória ligada ao fumo, como atores e jornalistas de TV mortos ainda na casa dos 60 anos e até menos, conseguem sensibilizar os fluminenses. E nem as notícias de amigos prematuramente falecidos por câncer ou infarto devido ao fumo. Há até mesmo o hábito de pessoas ficarem muito tempo com o cigarro na mão, quando poderiam abandonar o cigarro de vez.

14) ALTO CUSTO DE VIDA - Produtos e serviços, no Grande Rio, custam muito caro, o que justifica o aumento dos assaltos, porque muitos pobres não têm dinheiro sequer para comprar o mais barato dos almoços. Os fornecedores de serviços e os vendedores, assim como os empresários ligados, deveriam ter noção de que o dinheiro do povo não é capim e poderiam baixar serviços e produtos de forma a se tornarem mais acessíveis à população, garantindo movimentação de renda e impedindo o perecimento de produtos e a falência de empresas.

Esses catorze itens são apenas os principais. O Rio de Janeiro, Estado e capital, precisa de uma violenta mudança e reavaliação de sua realidade, de forma a, pelo menos, alcançar uma reputação mais respeitável. Do jeito que está, o Estado sucumbirá a uma decadência tão grande que até o Acre passará a se tornar mais moderno e cosmopolita. O Rio de Janeiro não pode mais "continuar sendo", tudo tem que mudar.

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